Wednesday, November 26, 2014

Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher: as flausinas e os lopes dessa vida...

Foto minha: Fantasma de Menina de Rosa, Minha Filha

“Entanto que enfim, agora, desforrada. O povo ruim terminou. Meus filhos, Lopes, também, provi de dinheiro, para longe daqui viajarem gado. Deixo de porfias, com o amor que achei. Duvido, discordo de quem não goste. Amo, mesmo. Que podia ser mãe dele, menos me falem, sou de me constar em folhinhas e datas?
Que em meu corpo ele não mexa fácil. Mas que, por bem de mim, me venham filhos, outros, modernos e acomodados. Quero o bom-bocado que não fiz, quero gente sensível. De que me adianta estar remediada e entendida, se não dou conta de questão das saudades? Eu, um dia, fui já muito menininha... Todo o mundo vive para ter alguma serventia. Lopes, não! – desses me arrenego.”

Esse é o final do monólogo de Flausina em "Esses Lopes", conto de Guimarães Rosa, que em 1967 respondeu a uma daquelas perguntinhas safadas sobre "o comportamento da mulher atual em desacordo com a condição feminina" na lata, dizendo que era melhor assim porque "antigamente havia um exagero, o homem era homem demais e a mulher era mulher demais". Em tempo, flausina num velho dicionário de português significava “rapariga moderna que traja com todas as extravagâncias da moda” e era gíria para uma mulher  lésbica. Quem quiser saber mais sobre o conto, pode procurar meu livro [momento propaganda...]. 

Infeliz quem ainda insiste em ser "homem" demais ou "mulher" demais [os dois bem cobertos de aspas], mas cada um faz o que quer da sua vida. Mais infeliz ainda quem não reconhece a necessidade de respeitar as escolhas, a autonomia dos outros, o direito dos outros de ser quem eles quiserem ser do jeito que eles querem ser e não sabe que há que mudar muitomuitomuitomuito para poder libertar de verdade as pessoas que querem ser livres de outros jeitos. Agora triste mesmo é achar que homem só por ser homem não tem motivo para querer mudar muitomuitomuitomuito. Quem quer ser Lopes nessa vida? Me inclua bem fora disso. 
 

No comments: