Wednesday, February 29, 2012

Poesia Minha - Hino do Filho de Sétimo Dia

Hino do Filho de Sétimo Dia

"¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son."
– Pedro Calderón de la Barca, 'La vida es sueño'

Saio cedo,

não me importa o frio,

nem me incomoda o medo.

Sempre fui assim:

esse homem esquisito

que ninguém não podia entender.

Desastrado improviso,

obra má, de má argila,

sou também irmão

e seu semelhante.

Meu pai já morreu;

o que ele me deu

e o que ele me tirou

inteiram a fôrma

exata da minha dor.

Meu pai aviava,

meticuloso e ardente,

o elixir da longa morte

que hei de tomar

todo dia de manhã,

daquela segunda-feira

há sete dias passada

até o resto da vida.

Começou a temporada de caça!

Chegou minha hora!

Chegou minha vez!

Frenesi ou ilusão,

sombra ou ficção:

todos os meus sonhos

dançam sua morte

com os pés no chão;

são cinzas, cabem agora

na palma da minha mão!

Monday, February 27, 2012

Poesia Mexicana - Jaime Sabines 2


VII

Madre generosa

de todos los muertos,

madre tierra, madre,

vagina del frío,

brazos de intemperie,

regazo del viento,

nido de la noche,

madre de la muerte,

recógelo, abrígalo,

desnúdalo, tómalo,

guárdalo, acábalo.

Friday, February 24, 2012

Poesia Mexicana - Jaime Sabines

[ilustração: cemitério em ouro preto]
Este é o sexto fragmento de poema de Sabines sobre a morte do seu pai:

Sobre la muerte del coronel Sabines

VI

Te enterramos ayer.

Ayer te enterramos.

Te echamos tierra ayer.

Quedaste en la tierra ayer.

Estás rodeado de tierra

desde ayer.

Arriba y abajo y a los lados

por tus pies y por tu cabeza

está la tierra desde ayer.

Te metimos en la tierra,

te tapamos con tierra ayer.

Perteneces a la tierra

desde ayer.

Ayer te enterramos

en la tierra, ayer.

Wednesday, February 22, 2012

Prosa minha - Um conto de fadas

“Aconteceu há muitos anos atrás num reino distante no vale de um rio antigo que hoje corre debaixo da terra. Lá vivia um príncipe-menino, que apesar de príncipe era mandado por todo mundo: pelos pais, pelos avós, pelos irmãos mais velhos e até pelo pessoal do palácio. O menino tomava puxão de orelha quando falava alto e palmatória quando falava baixo, bofetão quando falava demais e beliscão quando falava de menos, peteleco quando falava mentira e cocão quando dizia a verdade. Tinha uma lista comprida de coisas que ele não podia fazer: não podia comer nem demais nem de menos, não podia esquecer nem os tamancos no quintal nem o turbante no banheiro, não podia dormir deitado de barriga para baixo nem comer em pé encostado no guarda-corpo da varanda. A vida desse príncipe-menino era assim: só aborrecimento e contrariedade.

No primeiro dia da primavera em que ia fazer 13 anos, o príncipe-menino encontrou um cartãozinho no chão do jardim do palácio. O cartãozinho cabia na palma da mão era feito de um marfim branco bem fino com letras pretas marchetadas assim:

SOBERANO

ABSOLUTO

O príncipe-menino limpou e guardou na mão direita aquele cartãozinho. Dali em diante a vida dele e de todos à sua volta mudaria para sempre.

Primeiro foi a mãe, que chegou reclamando de alguma coisa que o menino tinha esquecido espalhada no chão do quarto. Quando viu o cartão, se pôs de joelhos aos pés do filho e disse, “Perdão, Venerado Amo, pela ousadia. O vosso desejo é sempre e antes de tudo uma ordem!” e saiu correndo para a cozinha para preparar ela mesma o prato favorito do filho para o almoço. O pai do príncipe menino detestava e era até meio alérgico ao tal prato, mas nem bem começou a reclamar, viu o cartão e disse, “Tereis quando e o quanto quiserdes da comida que vos agrade, Excelentíssimo Magnífico!” e passou então a deixar o filho dormir nas suas almofadas favoritas com a sua coberta de seda.

O príncipe-menino não era bobo e entendeu o que acontecia quando as pessoas viam o cartãozinho. Em dois palitos já usava e abusava do cartão. Mandou a irmã mais velha engraxar as botas dele com a língua; fez seu professor escrever 300 vezes na lousa, ‘O príncipe-menino é gênio sem igual na história da humanidade’; comeu sorvete antes do almoço 13 dias seguidos; mandou pôr no banheiro um assento com pele de coelho forrado com pena de ganso; judiou dos avós já velhinhos fazendo eles carregarem o neto já meio gordo pela rua; obrigou a melhor banda de música do reino a tocar a música que ele mais gostava cinco horas sem parar e gastou uma imundície de dinheiro com livrinho de mulher pelada.

Mas poder assim absoluto sobre todas as coisas parece que cansa. O mundo se abria para o príncipe-menino tão rápido e fácil que a fome virou indigestão e o gosto, enjoo. O enfado fez do príncipe um menino infeliz outra vez. E da infelicidade enfastiada o menino-príncipe só saiu quando arrumou uma paixão de corpo e alma. Essa paixão, como tanta paixões, nasceu de um ódio visceral, uma ojeriza feroz às baratas.

Então o príncipe-menino concentrou seu poder ilimitado e inquestionável na empreitada de varrer completamente das cidades, campos, florestas e desertos do reino aquele bichinho que lhe dava calafrios de asco. Montou 300 milícias de 300 homens, mulheres e crianças; todo mundo armado com tamanco, sandália, chinelo ou até botina nos pés e nas mãos, caçando barata 24 horas por dia 7 dias por semana. Todas as noites chegavam de todos os cantos do reino montanhas terríveis de baratas assassinadas, trazidas à praça central da capital para queimar em fogueiras imensas que iluminavam a cidade em polvorosa com os gritos do povo fanatizado: “Morte, morte às malditas baratas!” E um esquadrão de fiscais implacáveis vigiava todas as entradas e saídas do reino para não deixar nenhum cascudo estrangeiro entrar vivo no reino. E durante um ano inteiro a energia do povo e o dinheiro do governo estavam voltados fazer valer o lema da campanha “Barata boa é barata morta”, lançada com festa e fanfarra pelo príncipe-menino, sempre com o seu cartãozinho agarrado na palma da mão.

Só que mesmo depois de um ano de massacre as baratas, indiferentes, insistiam em aparecer impunemente nos cantos mais insuspeitos do reino para a consternação geral do povo, envolvido na paixão do menino ou com medo de despertar a raiva do príncipe que eles chamavam agora de Soberano Absoluto.

E o Soberano Absoluto juntou 300 sábios que mergulhavam em livros e tratados escritos nos 4 cantos do mundo para ver um jeito de derrotar o inimigo que insistia em recusar a extinção. Tradutores de todas as línguas do mundo passavam noite e dia debruçados sobre volumes vetustos de todo tamanho e formato em busca de uma solução final para a Questão das Baratas até descobrirem um livrinho empoeirado no fundo de uma biblioteca esquecida nos confins de um outro reino distante que contava de um predador imbatível com um apetite insaciável por baratas: o Escorpião Prateado.

E o príncipe-menino mandou uma expedição de 300 sábios, guerreiros, caçadores e rastreadores experientes até as inóspitas ilhas rochosas no fim do mundo, onde vivia o tal terrível Escorpião Prateado. E um ano depois, só um dos 300 expedicionários voltou, com um casal de escorpiões prateados trancados num cofrinho de madeira decorada. Doente e fraco, esse último sobrevivente expedicionário – um rastreador humilde – morreu no dia seguinte sem poder contar o que acontecera com seus companheiros de viagem.

O próprio Soberano Absoluto fez questão de cuidar pessoalmente do criatório, mandando separar os filhotes logo após o nascimento para não deixar os pais comerem a própria cria. Depois de 30 dias de procriação feroz, o Soberano Absoluto montou 13 batalhões com 13 escorpiões cada, soltos nas 13 províncias do reino. E em 13 dias os escorpiões prateados ferroaram e comeram todas as baratas do reino. No décimo quarto dia, os 13 batalhões, agora com mais de 100 escorpiões prateados cada um, atravessaram os portões da capital ainda enfurecidos de fome e desejo de esvaziar na primeira coisa viva que encontrassem seus ferrões inchados de peçonha mortal.

E o Soberano Absoluto também teria morrido naquele dia não fossem várias pessoas se atirarem na sua frente para receber as ferroadas mortais em seu lugar. Com muito custo ele conseguiu fugir do castelo e da cidade, só com a roupa do corpo e o cartãozinho na mão. E do alto da serra nos arredores da cidade assistiu à devastação absoluta: gente, bichos de casa e de rua, insetos, pássaros, e ratos e tudo mais o que fosse vivo estava agora estirado pela rua, inertes, devorados pelos milhares de bichinhos que reluziam prateados ao sol do meio dia e comendo ali mesmo pariam mil gotinhas prateadas que corriam para debaixo dos cadáveres inchados para fugir da fúria faminta dos pais.

Cansado, o príncipe-menino se deitou sobre as pedras brutas da colina, fechou os olhos e caiu num sono profundo recheado de dois sonhos.

Primeiro sonhou sua vida de trás para frente – a cada dia um pouco mais jovem, desaprendendo, diminuindo, recobrando as feições de menino pequeno e depois de bebê, voltando-se em si mesmo até se transformar num recém desnascido, encolhidinho dentro da barriga de sua mãe. E lá dentro, naquele mundo aquático escuro e tranqüilo, o príncipe-menino continuava a se desintegrar à medida em que cada par de células se desunia até ser de novo em embrião, que se separou em duas metades desiguais que continuaram se afastando para trás até se dissolver nos corpos dos seus pais. E o príncipe então continuava sonhando que estava incrustado de novo ao mesmo tempo no corpo do pai e da mãe, que continuavam rejuvenescendo, desaprendendo e encolhendo-se em moços e jovens e meninos crianças cada vez menores até que entravam dentro das suas duas avós e separavam-se depois em quatro e assim em progressão infinita. Até que o Soberano Absoluto se dividiu numa legião de grãos de pó microscópico, infinito e imortal e vivia dentro de cada grão dessa imensa legião espalhada pelo mundo, continuando o jogo de desmanches infinito, pois o tempo nesse primeiro sonho do príncipe-menino era igual ao nosso tempo acordado – eterno, em movimento constante e implacável.

Depois veio o segundo sonho: depois de matar e comer tudo, os escorpiões prateados matavam-se e comiam-se uns aos outros com a mesma fúria louca até desaparecerem eles mesmos por completo ferroando-se a si mesmos um a um até deixar cidade e reino completamente desertos. Aí o príncipe-menino sonhou que acordava do seu sonho e largava mão do cartãozinho e descia o morro e voltava à capital do reino para reconstruí-lo, não como o Soberano Absoluto, mas como um rapaz homem como outro qualquer, mais feliz do que triste, capaz de aceitar os limites desse mundo, da sua gente e do seu próprio corpo como um cavalo regalado que não se olha os dentes. E esse segundo sonho era tão bom que o príncipe-menino não quis acordar nunca mais, e continuou a sonhando esse mesmo sonho tranqüilo até o fim dos seus dias, um velhinho deitado sobre as pedras brutas do alto das colinas em volta de sua cidade segurando bem firme na mão direita o seu Cartãozinho do Soberano Absoluto.”

Tuesday, February 21, 2012

Meu pai nunca gostou muito de música popular. Ele gostava mesmo de ópera e música erudita e chegava a implicar com Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mas eu me lembro claramente a sessão conjunta em que a família se reunia em volta do toca-disco dele para ouvir o novo disco de Chico Buarque que ele tinha comprado. Assim foi até que a ditadura acabou e a trepidação de ouvir o que o Chico dizia diminuiu. Mas naquelas sessões outras lições que não tinham nada a ver com política eram aprendidas também.

Friday, February 17, 2012

Quantificando qualidade

A mídia adora rankings. Os melhores escritores, a melhor pizzaria, o melhor jogador de futebol, o rocambole mais comprido, o ator mais sexy, traseiro feminino mais volumoso: parece que tudo na nossa vida pode ser organizado em rankings, inclusive as universidades. Suspeito até que, se as universidades privadas no Brasil não fossem tão explicitamente desfavorecidas nos rankings da área, a imprensa nacional daria ainda mais destaque aos tais rankings. Nos EUA, de onde suponho vem essa voga dos rankings, o mais famoso e influente ranking de universidades é o da revista US News, que o publica anualmente desde os anos 70.

As queixas por parte das universidades sobre os critérios desses rankings são antigos. Por exemplo, os diretores das escolas de medicina americanas se reuniram recentemente para oferecer mais um retrato tremendamente crítico da metodologia da US News como “a one-size-fits-all measure that is flawed by its use of inadequate metrics, low response rates, conflict-of-interest issues, and a ‘reputational’ survey that may be based on decades-old perceptions.” Quem sou eu para discutir critérios técnicos de pesquisas quantitativas… Apenas padeço da mania de desconfiar delas já pelo princípio: quantificar numericamente a qualidade me parece uma forma torpe de mascarar a subjetividade inerente a qualquer avaliação de qualidade. Coisa que nem os rankings que se valem da consulta de um grupo de notáveis em uma determinada área consegue escapar.

É fácil dizer que, por exemplo, Amarcord e Morangos Silvestres são filmes excelentes e não é impossível debater longamente sobre os dois e terminar preferindo um ao outro, mas inventar um ranking e dizer que provou “cientificamente” que um dos dois filmes é melhor pois a maioria de 350 críticos de cinema instados a escolher optou por um deles? Você trocaria um conto magistral de Machado de Assis por trezentos contos meia-boca de um contemporâneo qualquer? Você trocaria as pouco mais de cem páginas de Pedro Páramo por uma dúzia de gordos romances de algum outro escritor latino Americano mais prolífico? E afinal, o que é que o número de artigos acadêmicos publicados por um determinado sujeito diz sobre o trabalho dele além do fato de que ele é prolífico?

Mais do que sinal do prestígio das ciências exatas, essa mania de rankings, que é uma expressão da mania de quantificar “objetivamente”, me parece uma face da expansão do vocabulário do gerenciamento capitalista de empresas para todas as áreas da nossa existência. Acabamos assim: máquinas de fazer parafuso e máquinas de escrever artigos acadêmicos; equipes montadoras de automóveis e equipes montadoras de filmes fazem artigos-parafusos e filmes-automóveis com seus controles de qualidade respectivos.

Volta a reportagem sobre o encontro dos diretores de escolas de medicina, onde um comentário me chamou a atenção: um dos entrevistados disse que algumas escolas de medicina estão melhor preparadas para formar médicos de certas áreas do que outras, e que os rankings afinal não tomavam conhecimento das necessidades particulares dos seus leitores. A melhor escola para alguém que quer ser cirurgião plástico é a melhor escola para alguém que quer estudar epidemiologia? A padronização gerencial da cultura não afeta apenas os produtores e os seus respectivos produtos; termina reduzindo os seus consumidores a bem azeitadas máquinas de consumir.


Wednesday, February 15, 2012

Pedras da Nova Inglaterra, pedras do sertão


A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;

para aprender da pedra, freqüentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;

a de economia, seu adensar-se compacta:

lições de pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

e se lecionasse não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

uma pedra de nascença, entranha a alma.

Monday, February 13, 2012

Diário da Babilônia - New Haven, Wall Street


Eis a rua onde fica meu escritório, que fica logo acima do barbeiro, indicado pelo tradicional poste listrado. Neste semestre sumamente conveniente, minhas duas aulas são dadas do outro lado da rua. Logo em primeiro plano o "rack" das bicicletas, de onde a minha foi roubada.

Wednesday, February 08, 2012

Fragmentos de "Fuga" de Vidas Secas


Só lhe restava jogar-se pelo mundo,
como negro fugido.

Podia continuar a viver num cemitério?
Nada o prendia àquela terra dura,
acharia um lugar menos seco para enterrar-se.

Trabalhava demais para não perder o sono.

Mas achava-se desamparada e miúda na solidão,
necessitava um apoio,
alguém que lhe desse coragem.

Falou no passado, confundiu-o com o futuro.
Não poderiam voltar a ser o que já tinham sido?

Não seria bom tornar a viver como tinham vivido, muito longe?

Então eles eram bois para morrer tristes por falta de espinhos?

Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada,
ficariam presos nela.
E o sertão continuaria a mandar gente para lá.

Monday, February 06, 2012

Teddy Bear


“I don’t go so far as to think that the only good Indians are dead Indians, but I believe nine out of ten are, and I shouldn’t like to enquire too closely into the case of the tenth.”

Theodore Roosevelt, aquele bonachão risonho e tímido interpretado por Robin Williams no filme Uma Noite no Museu, quando ele se apaixona pela índia Sacagawea, guia e intérprete de uma famosa expedição pelo oeste americano no começo do século XIX.


Aqui abaixo vemos Roosevelt, já aposentado, se divertindo em caçadas no sertão brasileiro com Rondon Pacheco. Suponho que, felizmente, na falta de um pele vermelha sobrou para esse veado campeiro…


Saturday, February 04, 2012

Graveola e o lixo polifônico - Farewell Love Song


Sim, há algo além daqui
e existe um mundo além de nós dois
e existe amor além, eu sei.
É, que bem a vida fez aqui,
a sorte de encontrar um amor,
a sorte de encontrá-lo em você

Deixa estar, que a gente vai sobreviver em som,

onde houver canção,
sabe bem melhor assim, eu sei

Não, prefiro não fugir do que foi,
preciso acreditar no que flui
e sei que o que há de vir é melhor pra mim.
Se bem que a vida vai e vem
e à sorte da distância é melhor
guardar os fragmentos sem perder o amor.

Deixe estar, que a gente sabe a solidão em sol,
onde o coração alimente o rastro que deixamos por aí.

Wednesday, February 01, 2012

Poesia Minha - Variações sobre nós dois


Seis variações sobre nós dois

… el Océano ejemplificaba

tangible y espetacularmente

la hostilidad y extrañeza de la realidad cósmica y,

en cuanto límite de la Isla de la Tierra,

no le pertenecía al mundo y,

por lo tanto, no se le consideraba

como susceptible de posesión juridica

u objeto para el ejercicio de la soberania de los príncipes.

Edmundo O’Gorman

I

Mar alto, cego, indiferente,

digere um punhado de pó;

dissolve o grão, consome o seco,

desmonta a oferta do escolho.

II

Incham os músculos do rio,

rasgam as margens de pano,

caçam o cascalho da beira,

abraçam, sufocam o saibro,

enterram farpas de pedra

no campo santo de seixos,

silenciosa fábrica de limo.

III

A chuva fina insiste e encharca a laje,

se enfia pelos cantos mais duros,

infiltra o reto, corrói o plano,

cava veios, apodrece a prazo

a própria catacumba de calcário.

IV

Nudo, baço, manso, obscuro lago,

dorme inerte no estio do inverno,

no berço cercado de serras vermelhas;

sonha, se amolda, contorna

amorosamente

enquadrado no minério

de ferro da serra.

V

Poça esquecida no alto do barranco,

humilde se aterra

nos braços rachados do barro;

se seca no sol,

se mata no escaldo

e evapora livre

de si mesma, afinal.

VI

Vira a noite a madrugada;

o orvalho vaporoso

desce da nuvem cinzenta

e pousa na pedra.

Cobre de prata a pedra paciente,

que espera pelo sol.