Friday, February 17, 2012

Quantificando qualidade

A mídia adora rankings. Os melhores escritores, a melhor pizzaria, o melhor jogador de futebol, o rocambole mais comprido, o ator mais sexy, traseiro feminino mais volumoso: parece que tudo na nossa vida pode ser organizado em rankings, inclusive as universidades. Suspeito até que, se as universidades privadas no Brasil não fossem tão explicitamente desfavorecidas nos rankings da área, a imprensa nacional daria ainda mais destaque aos tais rankings. Nos EUA, de onde suponho vem essa voga dos rankings, o mais famoso e influente ranking de universidades é o da revista US News, que o publica anualmente desde os anos 70.

As queixas por parte das universidades sobre os critérios desses rankings são antigos. Por exemplo, os diretores das escolas de medicina americanas se reuniram recentemente para oferecer mais um retrato tremendamente crítico da metodologia da US News como “a one-size-fits-all measure that is flawed by its use of inadequate metrics, low response rates, conflict-of-interest issues, and a ‘reputational’ survey that may be based on decades-old perceptions.” Quem sou eu para discutir critérios técnicos de pesquisas quantitativas… Apenas padeço da mania de desconfiar delas já pelo princípio: quantificar numericamente a qualidade me parece uma forma torpe de mascarar a subjetividade inerente a qualquer avaliação de qualidade. Coisa que nem os rankings que se valem da consulta de um grupo de notáveis em uma determinada área consegue escapar.

É fácil dizer que, por exemplo, Amarcord e Morangos Silvestres são filmes excelentes e não é impossível debater longamente sobre os dois e terminar preferindo um ao outro, mas inventar um ranking e dizer que provou “cientificamente” que um dos dois filmes é melhor pois a maioria de 350 críticos de cinema instados a escolher optou por um deles? Você trocaria um conto magistral de Machado de Assis por trezentos contos meia-boca de um contemporâneo qualquer? Você trocaria as pouco mais de cem páginas de Pedro Páramo por uma dúzia de gordos romances de algum outro escritor latino Americano mais prolífico? E afinal, o que é que o número de artigos acadêmicos publicados por um determinado sujeito diz sobre o trabalho dele além do fato de que ele é prolífico?

Mais do que sinal do prestígio das ciências exatas, essa mania de rankings, que é uma expressão da mania de quantificar “objetivamente”, me parece uma face da expansão do vocabulário do gerenciamento capitalista de empresas para todas as áreas da nossa existência. Acabamos assim: máquinas de fazer parafuso e máquinas de escrever artigos acadêmicos; equipes montadoras de automóveis e equipes montadoras de filmes fazem artigos-parafusos e filmes-automóveis com seus controles de qualidade respectivos.

Volta a reportagem sobre o encontro dos diretores de escolas de medicina, onde um comentário me chamou a atenção: um dos entrevistados disse que algumas escolas de medicina estão melhor preparadas para formar médicos de certas áreas do que outras, e que os rankings afinal não tomavam conhecimento das necessidades particulares dos seus leitores. A melhor escola para alguém que quer ser cirurgião plástico é a melhor escola para alguém que quer estudar epidemiologia? A padronização gerencial da cultura não afeta apenas os produtores e os seus respectivos produtos; termina reduzindo os seus consumidores a bem azeitadas máquinas de consumir.


6 comments:

André Tessaro Pelinser said...

Muito bom, Paulo.
De um lado, universidades ranqueadas; de outro, professores consequentemente reféns da pressão por engordar currículos.
No meio disso, famílias e estudantes se iludindo com o que os números mostram ser melhor.

sabina anzuategui said...

Pois é, recentemente ouço essas reclamações. Mas acho que há um sentido subterrâneo que varia em cada caso.

Por exemplo, os professores da área de Artes argumentam que a pontuação por artigos é baseada na área de ciências exatas - em que há prática de artigos em conjunto, o que aumenta o número total de artigos por pesquisador.

Assim, na pontuação geral, os departamentos de ciência são numericamente mais "produtivos" que os de humanidades, e recebem assim mais verbas proporcionalmente.

Mas não é esse justamente o raciocínio usado desde o princípio pra justificar a escolha de tais critérios?

Não é a priori uma valorização dos departamentos de ciências exatas ou de tecnologia, e a escolha desses critérios apenas uma decorrência?

sabina anzuategui said...

Ou seja: em vez de reclamar dos critérios de pontuação, não se deveria ter uma atitude política mais direcionada ao coração da questão?

Paulodaluzmoreira said...

É uma briga em que as humanas entram já previamente derrotadas, Sabina e André. Mas eu me lembro de um artigo em que eu li sobre a forma como, no final do século XX, as humanidades e mesmo as ciências sociais foram incorporando cada vez mais o vocabulário das ciências exatas, particularmente da biologia evolucionista.
Além disso tudo fica em mim a impressão cada vez mais forte de que as melhores coisas produzidas no campo da cultura nesse século passam muito longe da mídia...

Paulodaluzmoreira said...

E, André, há que se pensar que no fim das contas esses rankings todos não passam de "ferramentas de marketing". Como a lista dos Best Sellers ou da parada de sucessos, elas servem para um dos discursos mais manjados da propaganda: "compre X você também, não fique de fora".

André Tessaro Pelinser said...

Evidentemente, Paulo. Esse tipo de ranking é uma poderosa ferramenta de marketing, que funciona tanto para o bem quanto para o mal. A universidade bem cotada efetivamente atrai talentos, o que tem o poder de fazê-la cada vez melhor. Mas por outro lado, os talentos que para lá vão podem encontrar algo muito diferente do que esperam, como professores sobrecarregados, brigas de ego e Lattes entre professores e departamentos, e assim acabar sem tanta atenção quanto teriam em um lugar menos badalado, onde possivelmente professores e alunos fossem mais próximos (e essa proximidade faz toda a diferença).
E quanto a sua impressão, Paulo, não tenho dúvidas de que ela está correta, sobretudo em alguns setores. Artes plásticas, por exemplo, simplesmente não estão na mídia. Música tem sua divulgação feita de maneira inversamente proporcional à qualidade. Quanto melhor, menos vista.
E na literatura só se ouve os nomes de três ou quatro de fama consolidada. Investimento com garantia de retorno certo a editoras e mídia.
Resta-nos correr por fora.