Sunday, May 31, 2009

Útil lição

"... a lição muito útil: é preciso dar tanta importância à vida que o escritor inventa para si como à que realmente vive, porque aquela tem um vínculo tão profundo como esta com sua obra."
Roberto Echevarría

Thursday, May 28, 2009

Faulkner em entrevista inspirada

Faulkner passando para a máquina os garranchos microscópicos que escrevia à mão
Fonte: http://miamibeachhigh.schoolwires.com/6277_7012732037/lib/6277_7012732037/faulkner.jpg
"All of us failed to match our dream of perfection. So I rate us on the basis of our splendid failure to do the impossible. In my opinion, if I could write all my work again, I am convinced that I would do it better, which is the healthiest condition for an artist. That’s why he keeps on working, trying again; he believes each time that this time he will do it, bring it off. Of course he won’t, which is why this condition is healthy. Once he did it, once he matched the work to the image, the dream, nothing would remain but to cut his throat, jump off the other side of that pinnacle of perfection into suicide."

Wednesday, May 27, 2009

Meu Melhor Amigo


Esse é meu amigo americano: um carvalho negro que visito quase semanalmente no parque a dois quarteirões da minha casa. Não confunda meu amigo com esses carvalhos vermelhos que andam por aí; ele tem folhas grandes e dramáticas, com cinco pontas que são quase dedos, e um tronco revestido por uma casca grossa e bem rugosa. Acho que ele é do tamanho de uma casa de três andares e deve ter pelo menos uns cem anos, no mínimo. Nesta foto [pode clicar nela para ver uma versão um pouco maior] vocês estão vendo o carvalho negro na versão fim de primavera, bem verde e cheio de folhas no final da tarde que custa a chegar - agora só anoitece bem depois das sete. Mas eu visito meu amigo sempre, quando ele se cobre de folhas secas e nos vários meses em que ele fica completamente pelado - mas se você chega bem perto vê os brotos todos esperando pacientemente pela primavera; uma lição de paciência que eu custo a absorver...

Um dia apareceu um letrista chamado Márcio Borges

E Márcio Borges escrevia letras assim para seu irmão e os amigos dele, principalmente um tal de Milton Nascimento. Porque Milton Nascimento trocou Márcio Borges por Fernando Brant eu não sei, mas só sei que tudo acabou em xaropadas como Coração de Estudante... Ah, Milton, se você arrumasse um letrista como Márcio Borges de novo...



Clube da Esquina no 2


Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem se lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, asso, asso
Asso, asso, asso, asso, asso, asso
Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos
Calmos, calmos, calmos
E lá se vai mais um dia
E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva
De um rio, rio, rio, rio, rio
E lá se vai...
E lá se vai...
E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente
Gente, gente, gente, gente, gente

Monday, May 25, 2009

A Roberto Bolaño

Perdi um país
e ganhei um sonho
e perdi meu sonho
antes que ele me comesse por dentro
e fui embora para nunca mais
e deixei para trás o fantasma estéril
da violência que não leva nem traz
da ignorância dura, orgulhosa,
que despreza tudo o que eu amo,
das bombas que caíam do céu
assoviando meu nome.

No sonho que eu perdi alguém aparecia
do escuro e me atacava
com a violência objetiva e fria dos profissionais;
quando no chão ouvi perguntarem
como ele se chamava
ele parou e me disse o meu nome;
quando me levantei e olhei para ele
vi o meu rosto,
"um menino triste,
que a noite acariciava".

Perdi um país
e ganhei um sonho
e perdi meu sonho
e vim parar aqui,
onde só se vê com a ponta dos dedos,
onde a morte e o sono copulam impunes,
onde o ar entra queimando os pulmões
onde as bombas e as estrelas caíram do céu.

Friday, May 22, 2009

Puritanismo e sucesso


A experiência foi conduzida por Walter Mischel, um psicólogo austríaco (mais um dos vários “presentes” que a estupidez de Hitler deu aos Estados Unidos).
Alguns comeram a guloseima logo de cara sem nem tocar a campainha, outros tocaram a campainha depois de encarar a pilha de delícias por 30 segundos e mais ou menos 30% resistiram.
A idéia era estudar os processos mentais que as pessoas usavam para resistir aos seus impulses, mas à medida em que os anos se passaram e pesquisadores continuaram acompanhando aquelas crianças pela adolescência e vida adulta, constataram que aqueles que deram conta de esperar tinham notas melhores, menos problemas com dependência, etc.
[Aqui entre nós os caras acham que podem quantificar o “sucesso” e pior a “felicidade” das pessoas, coisa que eu acho altamente discutível]
Com isso o espírito puritano estadounidense chegou à conclusão de que a chave para o sucesso e felicidade geral é o lema de uma escola charter [um movimento de escolas privadas para crianças de comunidades carentes nos Estados Unidos, assunto muito interessante que fica para outro dia]:
Don’t eat that marshmellow... yet!

Wednesday, May 20, 2009

O que você faria?

Você tem quatro anos de idade. Alguém te leva para uma sala no seu jardim de infância. Você diz qual a sua guloseima preferida e trazem um bandeja cheinha, que fica numa mesa bem na sua frente. Uma pessoa explica que vai sair por alguns minutos e que, se você conseguir esperar até ela voltar, você pode comer duas guloseimas mas, se você preferir comer antes, você toca uma campainha, ela volta antes mas aí você pode comer apenas uma.

Sunday, May 17, 2009

Por causa de Guimarães Rosa

Quando estava escolhendo meu tema de dissertação me lembrei de um professor de graduação que tinha me dito: "se você vai escrever sobre alguma coisa, tenha certeza que você vai escolher alguma coisa que você goste muito". Acho que além de apreciação subjetiva, certas escolhas governam suas leituras e atividades de formas ainda mais complexas.
Por causa de Guimarães Rosa, estou lendo um livro interessantíssimo sobre os Ciganos. Escrito por um belga, Jan Yoors, que saiu de casa aos 12 anos com a permissão dos pais para vagar pela Europa com um bando de Romas por dez anos.
Por causa de Guimarães Rosa também estou lendo The Tradition of Female Tranvestism, um estudo sobre 119 mulheres apontadas em arquivos como tendo vivido pelo menos uma parte da vida transvestidas de homens nos séculos 17 e 18.
Por causa de Guimarães Rosa já pesquisei lagartas do Congo, venenos usados por escravos de casa para "amansar seus amos", facas sorocabanas, gírias lusitanas para "raparigas assanhadas", etc
Por causa de Guimarães Rosa estou indo para o México em junho dar um curso na UNAM - não perco uma hora de sono por causa da gripe suína mas as aulas em espanhol em compensação...

Thursday, May 14, 2009

Poesia minha: Vozes do além túmulo

No primeiro conto que eu escrevi [e continuo re-escrevendo até hoje] o protagonista, num momento de extremo desespero moral e desconforto físico, tinha uma visão onde aparecia o avô morto que falava assim com ele:

Depois de ter vivido tanto é que eu vi
que não vivi nada,
que fui vivido pelo tempo
que nunca teve dó de mim,
que nunca me fez nem um sinal,
que nunca nem me viu.
Cada palavra que saiu da minha boca
foi areia caindo em cima de areia;
todo esse movimento estúrdio,
em que o santo sobe e desce
e o cavalo permanece –
visto agora aqui de fora –
é feito um cachorro correndo
atrás do próprio rabo,
rodando, rodando, sem cansar;
é feito o mar que sobe e desce
e se estira na praia
ou bate dia e noite na pedra dura
e mesmo assim não sai nunca do lugar.
Não guardo mágoa
porque o pobre tempo de uma vida,
mesmo a vida mais bonita e mais comprida,
não é nem um cisco no olho do tempo todo do mundo;
ainda que esse tempo todo do mundo,
esse monstro de pedra
plantado dentro e fora de tudo,
seja feito assim: cisco
atrás de cisco atrás de cisco.
Só depois de ser vivido
pela minha vida inteira é que eu vi
e tudo isso que eu vivi
ainda me custa estar morrendo até agora.

Wednesday, May 13, 2009

Poesia Mexicana - Jaime Sabines

Poeta popular mesmo [no sentido Drummond do termo] no México é Jaime Sabines. Avesso a máscaras, defensor de uma ética da autenticidade na sua relação com a poesia e sempre desconfiado de si mesmo por fazer poesia com a sua vida. Aqui, fragmentos de "Sobre la muerte del coronel Sabines" de 1973, um de seus poemas mais conhecidos.

V
De las nueve de la noche en adelante,
viendo televisión y conversando
estoy esperando la muerte de mi padre.
Desde hace tres meses, esperando.
En el trabajo y en la borrachera,
en la cama sin nadie y en el cuarto de niños,
en su dolor tan lleno y derramado,
su no dormir, su queja y su protesta,
en el tanque de oxígeno y las muelas
del día que amanece, buscando la esperanza.

Mirando su cadáver en los huesos
que es ahora mi padre,
e introduciendo agujas en las escasas venas,
tratando de meterle la vida, de soplarle
en la boca el aire...

(Me avergüenzo de mí hasta los pelos
por tratar de escribir estas cosas.
¡Maldito el que crea que esto es un poema!)

Quiero decir que no soy enfermero,
padrote de la muerte,
orador de panteones, alcahuete,
pinche de Dios, sacerdote de penas.
Quiero decir que a mí me sobre el aire...

VI
Te enterramos ayer.
Ayer te enterramos.
Te echamos tierra ayer.
Quedaste en la tierra ayer.
Estás rodeado de tierra
desde ayer.
Arriba y abajo y a los lados
por tus pies y por tu cabeza
está la tierra desde ayer.
Te metimos en la tierra,
te tapamos con tierra ayer.
Perteneces a la tierra
desde ayer.
Ayer te enterramos
en la tierra, ayer.

VII
Madre generosa
de todos los muertos,
madre tierra, madre,
vagina del frío,
brazos de intemperie,
regazo del viento,
nido de la noche,
madre de la muerte,
recógelo, abrígalo,
desnúdalo, tómalo,
guárdalo, acábalo.

Monday, May 11, 2009

Muros




“Números do Instituto Pereira Passos, o centro de pesquisas da prefeitura carioca, informam que, entre 1999 e 2008, a expansão física das favelas do Rio foi de 6,9%. Pode ser muito, mas as comunidades escolhidas por Cabral cresceram apenas 1,2%. A Dona Marta, a primeira da lista, encolheu 1%. Resumo da obra: Cabral só quer murar comunidades encravadas na Zona Sul.”
Rodrigo de Almeida, "Sérgio Cabral e o urbanismo do medo" no JB

Fotos:
1. Fronteira Favela/"Asfalto"
2. Fronteira Israel/Palestina
3. Fronteira México/EEUU

Recomendação

Acontecimentos, o blogue do Antônio Cícero é muito bom. Abaixo uma amostra do que a gente encontra por lá:


Yves Bonnefoy: "L'imperfection est la cime" / "A imperfeição é o cimo"

A imperfeição é o ápice


Ocorria ser preciso destruir e destruir e destruir
Ocorria só haver salvação a esse preço

Arruinar a face nua a surgir do mármore,
Martelar toda forma toda beleza.

Amar a perfeição por ser o limiar,
Mas negá-la assim que conhecida, esquecê-la morta,

A imperfeição é o ápice.




L’imperfection est la cime


Il y avait qu'il fallait détruire et détruire et détruire,
Il y avait que le salut n'est qu'à ce prix.

Ruiner la face nue qui monte dans le marbre,
Marteler toute forme toute beauté.

Aimer la perfection parce qu'elle est le seuil,
Mais la nier sitôt connue, l'oublier morte,

L'imperfection est la cime.



De: BONNEFOY, Yves. "Hier regnant désert". Du mouvement et de l'immobilité de Douve suivi de Hier régnant désert. Paris: Gallimard, 1970.

Saturday, May 09, 2009

Antes de Diadorim


Catalina de Erauso era uma freira de 16 anos quando se meteu em uma briga com uma madre superiora do convento onde estava. Com a ajuda de uma tia que também era freira no mesmo convento, Catalina fugiu. Cortou o cabelo, vestiu roupas de homem e caiu no mundo, vivendo mil peripécias principalmente na América do Sul, incluso um par de noivados [com mulheres], guerras na qual se destacou pela bravura e ganhou patente de alferes, fugas, perseguições e duelos de morte. Presa em Lima depois de um duelo e prestes a enfrentar uma sentença de morte, Catalina chamou um padre e se confessou, contando toda a sua história em detalhes [como freira sairia dos braços da justiça real para os braços do clero] – detalhe fundamental: Catalina ainda era virgem. Voltou para a Espanha onde foi recebida com pompa e circunstância pelo rei, recebeu permissão para manter a patente de alferes e recebeu aposentadoria do rei, sua vida virou peça de teatro e chegou a ter uma audiência com o Papa em Roma, onde foi perdoada pelos seus pecados [não se fazem Papas como antigamente, parece]. O relato autobiográfico de Catalina, Aventuras de la monja alférez escrita por ella misma é um livro fascinante, que se encontra online em espanhol: http://www.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/01305042011682948755802/p0000001.htm

Thursday, May 07, 2009

Poesia Minha: Profecia

Profecia
A noite há de remendar
o que o dia arrebentou
e remendar e arrebentar
outra vez, amanhã e depois
e assim dia e noite,
em sucessão finita,
alheios a qualquer um de nós
até que o sol, velho e cansado,
finalmente se apague de vez
e só reste então
a lua, pequena e fria,
muda, sozinha,
em seu humilde trajeto amoroso
em volta da terra escura,
dois astros enfim sós,
enfim livres de nós.

Tuesday, May 05, 2009

Strange Fruit

Nina Simone regravou, mas a versão para mim definitiva dessa canção é a original de Billie Holliday. E quem quiser entender exatamente o que a canção significa, dê uma olhada na fantasmagórica coleção exibida em Without Sanctuary. Lá estão as fotos que eu não tenho coragem de por aqui, as várias fotografias que foram transformadas em postais por fotógrafos na pior época dos linchamentos americanos.

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

O grande pai de hoje é o ditador maldito de amanhã

Bustos de GV depois da queda do Estado Novo:http://www.cpdoc.fgv.br/nav_fatos_imagens/fotos/EstadoNovo/_gv148_b.jpg

Escultor americano trabalha enquanto o GV posa durante o Estado Novo.
http://www.cpdoc.fgv.br/nav_historia/fotos/Biografias/Getulio_Vargas/gvfoto084_1.jpg

Monday, May 04, 2009

Curto e Grosso: Raymond Carver


Olha, mas tbm tem o outro lado, o chamado curto e grosso [e o tema relacionado com o de Hemingway]:

Popular Mechanics

Raymond Carver


Early that day the weather turned and the snow was melting into dirty water. Streaks of it ran down from the little shoulder-high window that faced the backyard. Cars slushed by on the street outside, where it was getting dark. But it was getting dark on the inside too.

He was in the bedroom pushing clothes into a suitcase when she came to the door. I'm glad you're leaving! I'm glad you're leaving! she said. Do you hear?

He kept on putting his things into the suitcase.

Son of a bitch! I'm so glad you're leaving! She began to cry. You can't even look me in the face, can you?

Then she noticed the baby's picture on the bed and picked it up.

He looked at her and she wiped her eyes and stared at him before turning and going back to the living room.

Bring that back, he said.

Just get your things and get out, she said.

He did not answer. He fastened the suitcase, put on his coat, looked around the bedroom before turning off the light. Then he went out to the living room.

She stood in the doorway of the little kitchen, holding the baby.

I want the baby, he said.

Are you crazy?

No, but I want the baby. I'll get someone to come by for his things.

You're not touching this baby, she said.

The baby had begun to cry and she uncovered the blanket from around his head.

Oh, oh, she said, looking at the baby.

He moved toward her. For God's sake! she said. She took a step back into the kitchen.

I want the baby.

Get out of here!

She turned and tried to hold the baby over in a corner behind the stove.

But he came up. He reached across the stove and tightened his hands on the baby.

Let go of him, he said.

Get away, get away! she cried.

The baby was red-faced and screaming. In the scuffle they knocked down a flowerpot that hung behind the stove.

He crowded her into the wall then, trying to break her grip. He held on to the baby and pushed with all his weight.

Let go of him, he said.

Don't, she said. You're hurting the baby, she said.

I'm not hurting the baby, he said.

The kitchen window gave no light. In the near-dark he worked on her fisted fingers with one hand and with the other hand he gripped the screaming baby up under an arm near the shoulder.

She felt her fingers being forced open. She felt the baby going from her.

No! she screamed just as her hands came loose. She would have it, this baby. She grabbed for the baby's other arm. She caught the baby around the wrist and leaned back.

But he would not let go. He felt the baby slipping out of his hands and he pulled back very hard.

In this manner, the issue was decided."

Fonte: http://warren.dusd.net/~dstone/Resources/11P/car1.htm

Obs: Raymond Carver não é sempre tão curto e tão grosso; quem quiser conhecer o universo dele em menos de duas horas [a vida é curta, eu sei] basta conferir uma das melhores adaptações para o cinema que eu conheço: Short Cuts, filme em que Robert Altman costura com a técnica e delicadeza de uma verdadeira bordadeira nordestina vários contos de Carver.

Friday, May 01, 2009

Curto e fino: um micro-conto de Hemingway

Fonte: foto encontrada no pharmacists recoery network http://www.usaprn.org/images/Minimalism.jpg

For sale: baby shoes, never worn.