Sunday, January 31, 2010

Poema meu

Sonho cansado



Repara este traço
da mancha da espuma
da baba do verso
nervoso grafado
no meu travesseiro:
ao som abafado
do osso esmagado

por entre ferragens
da porta do carro
ardendo no fogo
esvai-se o corpo
em fumaça e cinza
que o vento carrega
maduro do chão

e a chuva retorna
fundida na lama
que o sol do meu sonho
resseca num pó
preto, amargo e impuro,
que irrita a garganta
e desce ao pulmão.

Como é que vem cá,
no meio do sonho,
e amarra a sua égua
o velho cansado
que espera o futuro
aqui, bem no centro
no meio de mim?

Friday, January 29, 2010

Provérbio da boca de um velhinho bem velhinho


“Nomás el poder se acaba. El querer no se acaba.”
Do documentário "El abuelo Cheno y otras historias"

Thursday, January 28, 2010

Homenagens a Davos

Poema de Efraín Huerta:
Luz, más luz
Es terrible
Pero
Cada día
Son más claros
Los intereses
Más oscuros

Fragmento de poema de Haroldo de Campos, "Sobre o neoliberalismo terceiro-mundista":
5.
o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de econômos
de economistas e atuérios
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercados
de capitães de intústria
e latifundiários
de banqueiros
-banquiplenos
(que importa?
desde que circule
auto-regulante
o necessário
plusvalioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atentos ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil

Wednesday, January 27, 2010

Lalo Guerrero: Elviz Perez

Quando um filho de mexicanos nasce e cresce nos Estados Unidos ele é chamado de chicano. Lalo Guerrero é um pioneiro chicano. Aqui ele conta a história de um tal de Elvis Perez - para mim esse tipo de humor escrachado é a cara das chanchadas brasileiras.

Tuesday, January 26, 2010

Cinema Mexicano: Juan Carlos Rulfo

Juan Carlos Rulfo é um documentarista excelente. Seu último filme, que tive a oportunidade de assistir em julho, é talvez seu melhor até hoje. A idéia em si já é excelente: em meio à enxurrada de filmes sobre imigração ilegal para os EUA, ele se propõe a olhar para os que ficam.

Monday, January 25, 2010

Diário de Pindorama: chacina da copa? chacina da olimpíada?

Roberta Duboc Pedrinha escreveu no Jornal do Brasil um artigo com o provocativo título de "Não queremos a chacina da Copa do Mundo". Passo aqui os dois primeiros parágrafos:

Faz dois anos e meio que ocorreu a megaoperação policial no Complexo do Alemão, conhecida como Chacina do Pan. Foi em 27 de junho de 2007, que se firmou uma parceria entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro (através da Polícia Civil e Militar) e o Governo Federal (através da Força Nacional de Segurança). O efetivo policial contou com um total de 1.350 homens e a intervenção culminou, em um único dia, com 19 pessoas mortas e 62 pessoas feridas por arma de fogo.

Me lembro bem disso, especialmente, quando de minha segunda visita após a operação, ao Complexo do Alemão, na condição de coordenadora de Sistema Penitenciário e Segurança Pública da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, em 30 de junho de 2007, particularmente impactante para toda a nossa equipe. Transcorreu durante todo um longo dia, em que os casebres na rua principal e nas ruelas estreitas estavam atassalhados por projéteis. Os rastros de sangue enodoavam a paisagem. A angústia e o desespero ainda estavam estampados nos olhos dos moradores. Ouvimos dezenas de emocionados depoimentos de vítimas, familiares de vítimas e testemunhas, tomados a termo na sede da Associação dos Moradores, que narravam extorsões, roubos, furtos, ameaças, constrangimentos ilegais, lesões corporais e homicídios. Estivemos com dezenas de vítimas ainda feridas, algumas sem nenhuma hospitalização."

Acho que não preciso comentar. O resto do texto está aqui.

Ou melhor deixo uma letra de Arnaldo Antunes que apareceu recentemente no blogue do Ademir Assunção fazer o comentário:

CHACINA

Acertaram aquele e o amigo dele

O de blusa listrada com a namorada

O menor correu, seu irmão morreu

O seu pai sumiu, nunca mais se viu

O de short azul, pasto de urubu

Camisa vermelha sobre o peito nu

Dois estão feridos mais sete escondidos

E os outros seis já viraram três

Quem tava do lado também foi queimado

Quem pode escapar não pode falar

Ninguém teve pena, ninguém teve dó

Daquela família só ficou a avó

E daquele corpo, osso dente e unha

Ninguém quer o troco, ninguém testemunha

Não deu na TV, nem deu no jornal

Não foi pra cadeia, nem pro hospital

Não teve caixão, não teve funeral

E TEM MUITA GENTE QUE ACHA NORMAL




Saturday, January 23, 2010

Sobre o que é justiça, de 1995 a 1945

Cinqüenta anos separam as duas citações, mas elas parecem ter sido feitas uma para a outra. O livro de Solomon articulou explicitamente coisas importantes para mim, coisas que a literatura como forma específica de conhecimento já tinha me contado implicitamente com o texto de Graciliano Ramos de onde vem o trecho abaixo e com o "Campo Geral" de Guimarães Rosa, coisas que eu li ainda na adolescência.


My overall argument is that justice is a complex set of passions to be cultivated, not an abstract set of principles to be formulated, mastered and imposed upon society. Justice begins with compassion and caring, not principles or opinions, but it also involves, right from the start, such “negative” emotions as envy, jealousy, indignation, anger, and resentment, a keen sense of having been personally cheated or neglected, and the desire to get even. Our sense of justice is cultivated from these “negative” emotions.
Robert C. Solomon, A Passion for Justice, 243 - 1995

As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.
Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio à minha mãe. O culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.
[…]
Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos.Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.
Pareceu-me que a figura imponente minguava – e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.
Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.
Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.
Graciliano Ramos, “Um cinturão”, Infância - 1945

Thursday, January 21, 2010

Video: That's Why I Chose Yale

Esse vídeo foi todo feito pelos alunos de graduação de Yale para captar alunos. Num dia de mal humor eu diria que era uma perda de tempo, mas eu não estou mal-humorado. De qualquer maneira todas as locações são reais e dão uma idéia melhor do lugar onde eu trabalho do que minhas fotos mambembes. Claro, que o filme não foi feito no inferno, digo, inverno...

Tuesday, January 19, 2010

Recordar é viver: sobre o passado recente no Haiti

Foto: Descrição da atuação “heróica” dos marines americanos na defesa do ditador haitiano Vilbrun Guillaume Sam. A tomada do forte Riviere terminou com a morte de todos os 200 rebeldes haitianos e um marine atingido na boca por uma pedra.


Em julho de 1915 os Estados Unidos invadiu o Haiti sob o pretexto de proteger os interesses americanos e estrangeiros no país – o Haiti devia os tubos a vários bancos americanos e europeus e temia-se uma moratória e, em 1911, um consórcio de investidores americanos tinha comprado o Banco Nacional do Haiti, única banco comercial e uma espécie de banco central do país. Os Estados Unidos ocuparam o Haiti por DEZENOVE ANOS. Frankin Delano Roosevelt, então secretário da marinha Americana, escreveu a nova constituição para o país. O exército americano treinou uma nova força militar especializada em CONTRA-INSURGENCIA, em vista da persistência de resistência armada à ocupação. O bairro dos militares e administradores americanos em Port-au-Prince era rigidamente segregado [como era os Estados Unidos na época] e era chamado pelos haitianos de “Rua dos Milionários”. Quando os americanos foram embora, deixaram para trás uma elite mulata que dominou o país até bem pouco tempo. Papa Doc Duvalier, que governou de 1957 a 1971, foi ministro da saúde durante o período de ocupação. Papa Doc entregou o poder a seu filho Baby Doc, que conseguiu ser ainda pior que o pai e ficou no poder até 1986. Quase TRINTA ANOS de cleptocracia marcada por violência paramilitar dos Volontaires de la Sécurité Nationale mais conhecidos como Tonton Macoutes [estima-se que pelo menos 30.000 pessoas morreram nas mãos dos aparelhos repressivos] e de escandalosa omissão para com uma massa que sofreu com a miséria e epidemias como a AIDS. Ah, durante todos esses anos os Duvalier foram aliados fiéis dos Estados Unidos, inclusive apoiando as intervenções e invasões ao país do outro lado da ilha, a República Dominicana.

Monday, January 18, 2010

a disparidade de forças não é nem será razão para que a gente se cale

Julio Cortázar escreveu, sob o impacto das notícias das atrocidades da ditadura argentina, o conto "Recortes de prensa" em que um escultor e a escritora/protagonista, ambos argentinos conversam sobre o sentimento de impotência e futilidade que os dois artistas sentem depois de ler uma carta de denúncia da perseguição implacável a uma família publicada no jornal [esse trecho, literalmente tirado de um jornal da época, é o primeiro dos dois recortes de jornal que aparecem no texto]. A parte mais importante do diálogo dos dois, na minha opinião, é esta:
"—Ya ves, todo esto no sirve de nada —dijo el escultor, barriendo el aire con un brazo tendido—. No sirve de nada, Noemí, yo me paso meses haciendo estas mierdas, vos escribís libros, esa mujer denuncia atrocidades, vamos a congresos y a mesas redondas para protestar, casi llegamos a creer que las cosas están cambiando, y entonces te bastan dos minutos de lectura para comprender de nuevo la verdad, para...
—Sh, yo también pienso cosas así en el momento —le dije con la rabia de tener que decirlo—. Pero si las aceptara sería como mandarles a ellos un telegrama de adhesión, y además lo sabes muy bien, mañana te levantarás y al rato estarás modelando otra escultura y sabrás que yo estoy delante de mi máquina y pensarás que somos muchos aunque seamos tan pocos, y que la disparidad de fuerzas no es ni será nunca una razón para callarse. Fin del sermón. ¿Acabaste de leer? Tengo que irme, che."

Somos muitos ainda que sejamos poucos, e a disparidade de forças não é nem será razão para que a gente se cale.

Friday, January 15, 2010

Gênios da raça: Pat Robertson e o terremoto

"It may be a blessing in disguise. ... Something happened a long time ago in Haiti, and people might not want to talk about it. Haitians were originally under the heel of the French. You know, Napoleon the third, or whatever. And they got together and swore a pact to the devil. They said, we will serve you if you will get us free from the French. True story. And so, the devil said, okay it's a deal. Ever since they have been cursed by one thing after the other."
–Pat Robertson, on the earthquake in Haiti that destroyed the capital and killed tens of thousands of people, Jan. 13, 2010
"Pode ter sido uma benção disfarçada. ... Alguma coisa aconteceu no Haiti há muito tempo atrás e o pessoal talvez não queira falar sobre isso. Haitianos estavam subjugados pelos franceses. Vocês sabem, Napoleão III, ou coisa parecida. E eles se juntaram e fizeram um pacto com o demônio. Eles disseram, nós vamos servir a você se você nos libertar dos franceses. História verídica. Então o diabo disse, ok, combinado. Desde de então eles vivem amaldiçoados por uma coisa atrás da outra."

Acho que dispensa comentários...

Thursday, January 14, 2010

Sobre desastres e tragédias

As pessoas abusam desse jogo entre o natural [o desastre] e o cultural ou humano [a tragédia] para sutilmente atribuir ou desatribuir responsabilidades quando as coisas acontecem.
Assim o humaníssimo desastre de Wall Street é descrito na imprensa como um tsunami criado por misteriosas forças do “mercado” e os terremotos, desabamentos, incêndios e enchentes que terminam em mortes às pencas quando envolvem pessoas pobres são todos “fatalidades”.
Mas as fatalidades não acontecem em qualquer lugar. O furacão Katrina não era diferente nos bairros mais elegantes de Nova Orleans e no “Ninth Ward” - era o mesmo desastre, que só virou tragédia na parte da cidade onde viviam os “indesejáveis”. Os desastres naturais no terceiro mundo - incluo aqui certos territórios do chamado primeiro mundo - são sempre tragédias humanas, porque as cidades são construídas precariamente - mas essa precariedade, esse improviso mambembe, esse desleixo não é para todos, não é mesmo?
O caso das enchentes no Brasil é claro em um ponto que vale a pena levar em consideração: quando chove muito em uma metrópole brasileira e nada acontece (ninguém morre afogado ou soterrado, nenhuma casa ou barraco cai) a imprensa não noticia. Talvez a gente se pergunte, "noticiar o quê? Não aconteceu nada!" Mas se prestássemos atenção veríamos que as chuvas intensas que caem mais ou menos nos mesmos lugares nas mesmas épocas do ano não afetam sempre as cidades do mesmo jeito. O que eu quero dizer é que as administrações (nesse caso, municipais) não são todas iguais. E um dos motivos pelos quais o nível da administração pública e da política parece estar tão baixo é que nós parecemos incapazes de identificar a diferença.

Wednesday, January 13, 2010

Acredite se quiser

William Paul Young está na lista dos mais vendidos do New York Times há 64 semanas. Seu romance, The Shack, foi inicialmente publicado na sua garagem. Na nomenclatura do mercado editorial The Shack é um livro “evangélico”, voltado para um público crente.
O surpreendente é que dizem que grande parte de The Shack gira em torno de idéias desenvolvidas principalmente pela teologia da libertação, entre outros por Leonardo Boff.
O livro parte de três conceitos teológicos quase proibidos pela igreja católica e pelos protestantes conservadores:
1. que toda a linguagem teológica é metafórica, não literal;
2. que a trindade é uma comunhão amorosa não-hierárquica [Ratzinger fritou Boff por conta dessa];
3. que TODAS as pessoas são salvas pela graça divina, não importa o que elas façam ou deixem de fazer ou no que elas acreditam ou não.

Vejo com simpatia que a fé seja aqui motivo de algo diferente de bombas e proibições ridículas. Sinceramente eu não consigo achar muita graça nesse Deus que é pura bondade – me parece um personagem muito sem sal e, tomando o mundo em que vivemos como medida, um pouco improvável. Na minha tosca mente de sujeito não iniciado nas sutilezas da teologia se Deus é mesmo onipotente, ou ele é desinteressado pelo destino dos seres humanos ou ele é capaz de requintes de crueldade e acessos de cólera.
Em termos estritamente literários, os trechos que eu li quando folheei o livro e a resenha que li me fazem pensar que esse The Shack deve ser uma maçaroca bem indigesta, um romance que não passa de um tratado de teologia mal disfarçado. E como tratado de teologia, não tenho como julgar o livro.
Um trecho curioso em que o protagonista, Mack, conversa com um carpinteiro judeu chamado "Jesus":
""Remember, the people who know me are the ones who are free to live and love without any agenda."

"Is that what it means to be a Christian?" It sounded kind of stupid as Mack said it, but it was how he was trying to sum everything up in his mind.

"Who said anything about being a Christian? I'm not a Christian."

The idea struck Mack as odd and unexpected and he couldn't keep himself from grinning. "No, I suppose you aren't."

They arrived at the door of the workshop. Again Jesus stopped. "Those who love me come from every system that exists. They were Buddhists or Mormons, Baptists or Muslim, Democrats, Republicans, and many who don't vote or are not part of any Sunday morning religious institutions. I have followers who were murderers and many who were self-righteous. Some were bankers and bookies, Americans and Iraquis, Jews and Palistinians. I have no desire to make them Christian, but I do want to join them in their transformation into sons and daughters of my Papa, into my brothers and sisters, into my Beloved."

"Does that mean," asked Mack, "that all roads will lead to you?"

"Not at all," smiled Jesus as he reached for the door handle to the shop. "Most roads don't lead anywhere. What it does mean is that I will travel any road to find you.""
— William P. Young, The Shack (p181-2)

Monday, January 11, 2010

Thursday, January 07, 2010

Sobre o comparatismo


[Esse post veio do incômodo que muita gente leiga tem quando digo que me formei em literatura comparada...]

Toda a comparação deveria ser um jogo delicado entre continuidades ou semelhanças e rupturas ou diferenças. Infelizmente a balança costuma pender exageradamente para um lado ou outro, mesmo porque parece que vivemos um verdadeiro culto dos juízos categóricos e das afirmações bombásticas. E não há nada de categórico ou bombástico em afirmar, por exemplo, que Brasil e Estados Unidos se parecem em muitas coisas e são bem diferentes em outras tantas. Aliás, se não entramos no no mérito da questão e definimos melhor as semelhanças e diferenças, isso não quer mesmo dizer nada.
Nos Estados Unidos fala-se muito no “excepcionalismo”, a idéia de que esse país foi e é diferente dos outros, único. O termo aparece, em geral, quando comparações são feitas entre os Estados Unidos e os países mais ricos e influentes do oeste europeu [Inglaterra, França, Alemanha]. Mas é curioso que o termo apareça num contexto comparativo, porque o excepcionalismo tende a ser uma forma fácil de evitar comparações mais complexas, explicando diferenças e principalmente ignorando semelhanças incômodas. “Ora”, diz o defensor do exepcionalismo, “a religião é muito mais importante nos Estados Unidos que na europa ocidental porque… os Estados Unidos são um país único, diferente da Europa.”
O excepcionalismo, ainda que sem esse nome, é uma doutrina também muito popular no Brasil, nos levando a um insularismo miserável. Com os olhos fixos no umbigo, decidimos que nossa música, nosso futebol, nossa língua, nossos costumes, nossa história, nossa política até nossa corrupção é única, diferente de tudo o mais o que há no mundo. Nossa fé no excepcionalismo se declara usualmente com um começo de frase sempre mais ou menos igual, tanto para os elogios como para as críticas: “só mesmo no Brasil para…” Isso aliás se encaixa muito bem com a nossa esquizofrenia [nada incomum na américa latina] que pensa sempre em superlativos – todos os elogios são desmesurados e todas as críticas demolidoras: temos as praias mais lindas e os políticos mais nojentos, o melhor futebol e a pior organização, o pior trânsito e a melhor comida, as melhores novelas ou a pior televisão do mundo no domingo. No orgulho ufanista ou na vergonha masoquista, o exepcionalismo não admite espaço para um país comum, na média, igual a muitos outros, com problemas semelhantes aos de outros lugares.
Por exemplo: discutiu-se muito a invasão da reitoria da USP no Brasil mas acho que ninguém quis pensar comparativamente em outras invasões mais ou menos recentes acontecida em grandes universidades públicas mais ou menos semelhantes (me refiro à Universidade Autónoma de México [UNAM] e a Universidade da Califórnia [UC], dois outros mastodontes do ensino superior nas Américas).

Tuesday, January 05, 2010

Os racistas americanos aprendem com os racistas brasileiros



Justin Barrett, policial de Boston, soltou um email público referindo-se ao professor de Harvard Henry Louis Gates, Jr. [que foi absurdamente preso por atividades "suspeitas" quando entrava pela porta da frente da própria casa] como um "banana-eating jungle monkey". Quando questionado sobre o assunto num programa de entrevistas da CNN, Barrett disse, com a cara mais limpa do mundo, “I am not racist”.
Ainda sobre o mesmo caso do professor Gates, Glenn Beck, comentarista político ultra-conservador da rede Fox News, saiu-se com a seguinte pérola: “This president has exposed himself as a guy over and over and over again who has a deep-seated hatred for white people or the white culture. I don't know what it is..." Pressionado por outro sujeito que estava no programa que dava exemplos de inúmeros brancos no governo e dizia que talvez 70% da administração Obama era de brancos, Beck afunda ainda mais o pé na lama e diz, I'm not saying he doesn't like white people, I'm saying he has a problem. This guy is, I believe, a racist." Ambas "performances" podem ser vistas no YouTube.

Monday, January 04, 2010

Gabriel Orozco, de novo, agora "made in Brazil": "Turista Maluco"



Gabriel Orozco já disse, com uma certa dose de ironia, que "desapontar sempre foi importante no meu trabalho". Hoje em dia, mais do que nunca, sempre se espera de um artista uma obra que deslumbre ou que assuste, “um soco no estômago”, “uma viagem ao sublime”, para usar clichês de críticos de segundo caderno. Pois Gabriel Orozco parece propor o desapontamento como terapia estética: aprender com as suas obras a ser artista enxergando a beleza na experiência concreta, na rua, no dia-a-dia, sozinho.
Uma receita simples para a obra de Orozco exibida neste post:
1. Passear de madrugada por um mercado de feira já vazio na cidade de Cachoeira na Bahia;
2. arranjar uma laranja amassada em cima de cada um dos tabuleiros;
3. tirar uma fotografia;
4. dar um título que se refira aos três pinguços que ficaram rindo e gritando “turista maluco!”

Saturday, January 02, 2010

Um instantâneo das elites brasileiras


•De 1968 a 1972 ele foi assessor de imprensa de governos da ditadura em SP.

•Foi dele a "inocente" pergunta sobre as convicções religiosas de FHC durante debate nas eleições para prefeito de SP ganhas por Jânio Quadros.

•Em público ele está sempre indignado e comenta as notícias dizendo "Isso é uma vergonha!"

•Em off ele comenta depois que dois garis aparecem desejando feliz ano novo: "Que merda: dois lixeiros desejando felicidades... do alto de suas vassouras... dois lixeiros... o mais baixo da escala do trabalho..."