Monday, August 17, 2015

Fragmentos: Corpo e Imaginação

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Depois de quase uma década trabalhando nos Estados Unidos, adaptar-se ao sistema de concursos das universidades  brasileiras é um desafio interessante. Enquanto nos Estados Unidos a universidade pede que cada candidato, além do seu currículo, apresente o melhor do seu trabalho, o sistema de pontos de exame exige que a gente saia estudando coisas e tentando construir um discurso articulado sobre assuntos que muitas vezes podem não ser mais que uma nota de rodapé no seu trabalho, quando não menos. Eu vou estudar A e acabo trombando com B ou C, que não tem nada a ver com o exame, mas me interessam muito mais. O resultado é que, entre vários textos curtos que tenho produzido para me preparar, acabo produzindo fragmentos que não servem para nada e que acabam ficando então "às moscas"... 

Eis um deles:

Corpo e Imaginação

Desenho meu: Carnaval
Como Tomás de Aquino, acredito na existência material da alma. Não como uma espécie
de terceiro rim fantasmagórico ou algum espectro misterioso escondido em algum beco escuro do cérebro. A alma está acessível a qualquer um que mantenha seus olhos bem abertos, fixos num corpo vivo. A alma é a forma do corpo, a forma como ele se apresenta aqui e agora, vivo, concreto. A alma é a forma pela qual o corpo se expressa no mundo que ele habita. Essa forma de expressão é única, distinta para cada pedaço de matéria viva que chamamos corpo. Portanto, volto a dizer, a alma está visível para qualquer um que quiser vê-la. Cada animal tem sua alma, sua forma particular de vida. Porque se comunica, porque constrói significado, porque se transforma constantemente, o corpo vivo se diferencia objetos inanimados (o termo significa exatamente sem alma). A alma é o corpo vivo, é a matéria articulada. Não quero ter nada que ver com o materialismo crasso que imagina toda a matéria como um saco de cimento inerte e estúpido. 

Arte minha: To Rent What You Owned
Como Marx, acredito num materialismo sutil que incorpora em si, por exemplo, o conceito de imaginação. Marx comparava aranhas e abelhas a tecelões e arquitetos para dizer que o que distingue os humanos dos animais não é a excelência de seu trabalho, mas o fato de que os humanos erguem primeiro em sua imaginação tudo o que poderão ou não eventualmente erguer na realidade. Por isso, quando leio um texto teórico e especialmente um texto que discute determinações primeiras e segundas e limites e potenciais da agência humana no mundo sou particularmente sensível à ausência ou presença do termo imaginação.

3 comments:

Anonymous said...

Ainda considerando a possibilidade de voltar para o Brasil? É esquisito, para alguém que está por aqui faz pouco sentido isso, embora você já tenha explicado algumas razões.

De fato, o sistema de concursos daqui é bem problemático. Ele está longe de medir o que cada candidato é, só consegue avaliar o que cada um sabia sobre aquele tema naquele dia. Fico imaginando o que aconteceria se você escrevesse um texto desses numa prova de concurso... Os examinadores seriam forçados a reconhecer a qualidade do negócio, mas ficariam de mãos atadas pelos critérios de avaliação.

Amplexo!

Paulodaluzmoreira said...

Estou inscrito para o concurso. Mas confesso que não sei bem como produzir o tal texto. Estou acostumado já a escrever o que eu quero, o que eu penso, o que eu quero dizer, e certamente um contexto de "exame" pede uma coisa bem diferente. É engraçado a gente ter que se colocar de novo nesse lugar de "aluno fazendo prova" mesmo depois de ter terminado o doutorado, que eu imagino ser o último rito de passagem para alguém ser considerado um professor e que é um trabalho cujo tema e campo de pesquisa que, por bem ou por mal, a gente mesmo definiu.

Anonymous said...

Nem me fale, isso é desanimador. Quando você acha que conquistou certa independência para escolher que caminho seguir, quais livros ler, que assunto investigar, você acaba tendo de voltar a ler e estudar uma série de coisas básicas que, apesar de sua importância, você já havia decidido que não eram seu foco.
Mas ainda fico pensando no que a banca faria caso aparecesse um texto desses numa prova de concurso!