Thursday, January 15, 2009

Uma gotícula de teoria: correr riscos em literatura

Encontrei um trecho de entrevista de Bolaño em que ele fala sobre a idéia de correr riscos em literatura, articulando o formal e o que ele chama de ético, deixando claro que o formalismo que podemos chamar de experimental pode ser a mais chata e previsível das literaturas justamente pelo seu vazio, por propor uma forma sem assumir qualquer tipo de risco no campo da relação entre arte e experiência, entre arte e vida. Bom, pelo menos essa é a interpretação que eu dei ao trecho...

n.enc
..
"Cuando hablo de riesgos formales no me limito a lo que comúnmente se llama literatura experimental. Tampoco estoy pensando en lo que se suele designar como literatura aburrida. La literatura aburrida, precisamente, es la que no asume riesgos. Y los riesgos, en literatura, son de orden ético, básicamente ético, pero no pueden expresarse si no se asume un riesgo formal".
... "De hecho, en todos los ámbitos de la vida la ética no puede expresarse sin la asunción previa de un riesgo formal".

4 comments:

sabina anzuategui said...

Esse assunto me interessa muito, muito difícil também. Porque a "experiência" também é mediada pelo que ouvimos sobre ela.

Num exemplo simples: no Brasil, muita gente de classe média vive preocupada com assaltos, violência urbana, violência policial, traficantes, etc. Então parece que isso é parte da "experiência", e há uma série de escritores escrevendo sobre isso.

Mas seria possível ignorar essa informação que nos rodeia e tentar medir nossa própria experiência, digamos estatisticamente? Quanto tempo da minha vida se passou com uma experiência real de violência (sem TV ou jornal)? Acho que passei por 2 ou 3 furtos bastante banais, nunca vi uma arma na mão de um assaltante. Assisti ao longe policiais dando batidas nas pessoas (provavelmente inocentes), mas essa violência moral nunca se tornou física, na minha frente.

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O que seria minha experiência? Precisaria confessar que vivo num mundo bastante doméstico e pouco intenso.

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E o que significa uma ética pessoal e estética nisso tudo?

Olha: não é fácil.

Paulodaluzmoreira said...

Concordo que o assunto eh dificil mesmo. Mas acho que ele nao pensa apenas na experiencia concreta pessoal do escritor, mas em como o escritor imagina a experiencia de estar vivo a essa altura dos acontecimentos nesse planeta infeliz.
Veja que o romance do Bolano tem bem no centro dele o chamado "feminicidio" de Ciudad Juarez, na fronteira do Mexico com os EUA. Centenas de mulheres foram estupradas e assassinadas nessa cidade durante anos e as investigacoes foram mal feitas [como seriam no Brasil se se tratasse de mulheres operarias, como era a grde maioria das vitimas no Mexico].
Bom, Bolano nunca viveu la [viveu muitos anos na capital do Mexico], o que nao quer dizer que ele nao tenha enfiado um monte de coisas que ele viveu diretamente tbm.
Acho que devem ter dois tipos de escritor: os como Drummond, que levam uma vida de funcionario publico [agitada nessas proporcoes ate] e os como Hemingway, que saem fazendo mil peripecias pela vida afora. Mas isso em si nao define nada. Tem vida mais chata, mais desprovida de grandes acontecimentos que a de Kafka?
E depois literatura nao tem que ser feita de grandes eventos mesmo, no e mesmo? As vezes um livro em que "nada" acontece eh um livro que diz muito mais sobre a experiencia humana que um livro cheio de explosoes, guerras e sequestros.
E na verdade a gente nunca deveria lamentar demais uma vida pacata [a minha tbm daria uma biografia-sonifero perfeita].

Mas a sua pergunta final continua ali, no final do seu comentario, fatal. Acho que eh pra responde-la que a gente escreve, talvez.

sabina anzuategui said...

Depois fiquei pensando que uma certa postura ética (filosófica, o que se queira) existe igualmente no esforço de leitura, escrita e vivencia. Diferenciar o raro do repetitivo, limpar o excesso de mediação, a repetição de padrões desgastados.

Não gosto de escrever em termos abstratos, mas me parece indiscutível que a experiência original quase não existe, tantas são as camadas de leituras prévias que temos sobre praticamente tudo o que nos acontece. E, por outro lado, nada "nos acontece" se não tivermos alguma preparação para aquilo, porque a memória apaga e distorce o que não podemos compreender.

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Tem um diálogo lindo sobre isso no filme "Vivre sa vie", do Godard. Ele coloca um filosofo real (esqueci o nome) para conversar com a Anna Karina, que faz uma jovem prostituta. São quase dez minutos da fala desse filósofo, é muito bacana.

Anonymous said...

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