Tuesday, April 21, 2015

Traduzindo o começo de "Nonato" de Augusto Roa Bastos


O parágrafo de abertura de Nonato, de Augusto Roa Bastos:

Augusto Roa Bastos
"Quando você me diz que eu não posso me lembrar tão para trás, que ninguém em seu juízo são pode fazer isso, e que eu já estou crescido para andar perdendo tempo com bobageiras de menino, eu me calo. Só por fora. Sem ninguém para falar dessas coisas, já que você também não quer me escutar, fico falando comigo mesmo, para dentro. Posso desperdiçar minhas palavras; não desperdiço nada com meu silêncio. Me abraço com a parede, encosto a boca no reboco e as sinto mover-se no meu hálito com gosto de cal, gosto de baratinhas vermelhas. Eu as mastigo um pouco e as deixo subir meio mancando. Sobem e ficam enroladas nas teias de aranha do teto."

No original em espanhol:

"Cuando usted me dice que yo no puedo acordarme tan lejos, que nadie en su sano juicio puede hacerlo, y que ya estoy crecido para andar perdiendo el tiempo en chocheras de chico, yo me callo. Solo por fuera. Sin nadie a quien hablar de estas cosas, ya que usted tampoco quiere escucharme, me quedo hablando conmigo mismo, para adentro. Puedo malgastar mis palabras; a qué voy a malgastar mi silencio. Me abrazo a la pared, aplasto la boca contra el revoque y las siento moverse en el aliento con gusto a cal, a cucarachitas rubias. Yo las masco un poco y las dejo subir rengueando. Suben y se quedan enredadas en las telarañas del techo."

2 comments:

Norma de Souza Lopes said...

Acho tão bom quando você compartilha esses trechos. Talvez eu nunca os lesse se não fosse assim.
Obrigada

Paulodaluzmoreira said...

Obrigado a você, Norma, que não deixa meu quintalzinho ficar às moscas!