Wednesday, March 12, 2008

Decasia


Recomendo com força o blogue da revista Modo de Usar & Co para quem gosta de poesia e quer conhecer coisas interessantes.
Inspirado pelo blogue, resolvi ressuscitar um poema antigo. O título refere-se à um projeto que tem música contemporânea e filmes corroídos, digamos, pelo tempo. Com música de Michael Gordon e filme de Bill Morrison, dá para ver clips do filme e do filme-concerto – inspirados pelo Fantasia de Disney em http://www.decasia.com. A leitura da primeira parte faz mais sentido depois
de ver pelo menos um clipe - a primeira estrofe descreve trechos de Decasia. A segunda parte dispensa comentários.

Decasia

a orquestra de cinquenta e cinco fúrias pulsavançatravancapitando em massa minimalesca
e os trombones glissando festivosinistros
pontuam o ácido que vem e passa e volta pela película do filme
engolindo e regurgitando as imagens
em seqüência de sonho mecânico:
o tear nervolento que roda na mão
a manivela que roda na mão do moço
o carrossel que roda a dez centavos,
a roda gigante de madeira que roda,
até que vem dançarino asceta rodando –
suspende a orquestra em massa em suspenso o mundo –
e sobra o apito sibilante e o dançarino sufi roda
com os braços abertos em êxtase em câmara lenta
roda a saia roda o braço do outro roda
roda roda roda roda a dor

eu sei que é consolo de muita gente crer
que sofrer melhora a gente mas
o sofrimento não melhora a gente em nada
e eu sei que é consolo de muita gente crer
que a dor quanto mais forte
por isso mesmo melhor e mais nobre
no seu efeito de fazer da gente
gente mais forte, melhor e mais nobre mas
o sofrimento não melhora a gente em nada
e eu sei que é consolo de muita gente crer
que termina mais resistente aquele
que sobrevive ao pesadelo
do sofrimento agudo intenso e duro
mas do meu lote todo até agora eu só tirei esse poder pífio
de reconhecer nos olhos dos outros –
na caixa do banco, no peixeiro,
na professora do meu filho, no meu irmão –
a mesma marca líquida que eu sei
estar aqui dentro dos meus olhos,
a marca líquida da corda dos nervos que estica
e estica até que arrebenta
e aí só nos resta a todos nós pobres coitados
esse mesmo corpo típico,
frouxo,
e esses mesmos olhos típicos,
moles,
e essa mesma corda elétrica solta no ar,
balançando a mesma nota aguda e surda
para sempre.

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