Sunday, December 06, 2009

Poema meu

O poema - em nova versão - ainda não está completo, mas depois de ter lido os jornais hoje, ando achando que ler poesia pode ser bem mais útil e informativo . As partes em itálico são poemas de outrem [putz, acabo de perceber que o itálico sumiu do word pra internet]. A história é sensacional e o elenco é muito forte - se não deu certo a culpa é toda minha.

Kafka e Drummond



Ciego a las culpas, el destino puede ser despiadado con las mínimas distracciones.
(…)
A la realidad le gustan las simetrías y los leves anacronismos.
Jorge Luis Borges, “Sur”



1939,
quatro dias antes
da Polônia começar a cair;
imagine No meio do caminho
tinha uma pedra
traduzido por um judeu da Hungria.
“É um maluco de Budapeste”,
diziam aqui.

Preso numa ilha,
terceira margem do rio Danúbio;
condenado a levantar e, depois
de pronto, desmanchar com as mãos nuas
um prédio de pedra dura;
o tradutor louco de Budapeste
numa pausa entre arremate
e demolição,
foge e vem parar aqui, no Brasil.

Aqui pede ao poeta
funcionário de ferro e pedra,
apenas um rastro, não importa,
que o guiasse pelo labirinto,
dos jardins da gripe,
dos bondes do tédio,
das lojas do pranto
do Estado Novo.
Quer arrancar um par de vistos
para a mãe e a noiva,
morando ainda na Hungria, onde
os ferozes padeiros do mal
e os ferozes leiteiros do mal
dançam em brasa, aos pés de Hitler,
até Ferenc Szálasi chegar
e começar, pra valer,
a dança da morte.

Mas naquele tempo,
como hoje em dia,
era livre a navegação
mas proibido fazer barcos.
Mas, “tivesse encontrado
mais três como o poeta funcionário
de ferro e de pedra,
as duas estariam aqui, vivas,
comigo”; disse Paulo Rónai.
Mas aquele era um tempo de homens
partidos – como hoje em dia.

Imagine então,
anos e anos mais tarde,
lendo um artigo do amigo
de Budapeste, Drummond,
de repente, compreende,
lívido: “Kafka sou eu! Sou eu, Kafka!”
(de quem nem Rónai, nem Carpeaux, nem mesmo
Rosenfeld sabia,
até que Sérgio Buarque de Holanda
chegasse da Alemanha
com a primeira versão
de Raízes do Brasil
e O Processo na mala).

6 comments:

sabina said...

a introdução me confundiu um pouco. você sugere um poema informativo - ou seja, sobre fatos reais?

porque tudo é fantástico e inacreditável.

sabina said...

estou ainda tentando entender... =)

drummond de fato atendeu um hungaro em situação parecida e, muitos anos mais tarde, chegou realmente a se confundir?

Paulodaluzmoreira said...

Tudo no poema eh verdade! Paulo Ronai traduziu Drummond, foi preso numa ilha no Danubio, fugiu deixado mae e noiva na hungria, tentou conseguir vistos para as duas mas nao conseguiu e elas morreram no holocausto, escreveu um artigo sobre kafka em que drummond identificou sua persona poetica gauche e kafka chegou a esses refugiados pelas maos de Sergio buarque de holanda que trouxe rascunhos de raizes do brasil da alemanha.

Paulodaluzmoreira said...

E,qdo preso, Ronai e os outros tinham que construir um predio e depois de pronto demoli-lo.

sabina anzuategui said...

mas ainda tenho uma dúvida: quando drummond se identificou, ele nunca tinha ouvido falar de kafka? ou conhecia, porem nunca tinha lido?

Paulodaluzmoreira said...

Eu acho que ele ja conhecia Kafka superficialmente e o artigo do Ronai descrevia esses protagonistas de Kafka de tal forma que o Drummond exclamou [a fonte eh a biografia Sapatos de Orfeu] "Kafka sou eu!" ou coisa que o valha - uma identidade absolutamente valida, luminosa mesmo, na minha opiniao. O poema junta cacos de informaçoes que nunca estiveram juntos e os cacos foram se fundindo depois de pelo menos dois anos.