Tuesday, August 23, 2016

Gentileza e Brutalidade

Pintura de Pedro Américo de 1893 que assombrou minha infância
Valentim Alexandre resume nos seguintes termos os principais traços atribuídos aos portugueses como colonizadores pela ideologia do luso-tropicalismo:

“Uma especial capacidade de se relacionar com outros povos, em particular os das regiões tropicais, uma forma de estar marcada pela ausência de preconceitos raciais, nos contactos com esses povos; uma particular apetência pela miscigenação, dando origem ao mestiço, em contraste com a relutância de outras populações, nomeadamente as nórdicas; e como consequência de todas estas características, uma vocação para servir de ponte, de elo de ligação entre regiões e culturas diferentes.” [Fonte aqui, na excelente tese de Sandro Motta Campos]

Leio de novo então o trecho da sentença de condenação de Tiradentes:

“… condenam ao Réu Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes Alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas a que com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas publicas ao lugar da forca e nella morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica aonde em lugar mais publico della será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes pelo caminho de Minas no sitio da Varginha e das Sebolas aonde o Réu teve as suas infames práticas e os mais nos sitios (sic) de maiores povoações até que o tempo também os consuma; declaram o Réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens applicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Villa Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados e no mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infamia deste abominavel Réu…” [A sentença completa está aqui.]


Seria mais fácil chamar o luso-tropicalista de mentira sem-vergonha. Ou pelo menos poderíamos atribuir essa cultura monstruosa [essa ponte/elo entre culturas que ao mesmo tempo enforca, esquarteja, arrasa, salga e torna infame por três gerações] apenas aos portugueses e não aos brasileiros também, como se o moinho de gentes montado na colonização não tivesse sido aumentado e amplificado depois da independência. Esse dilaceramento extremo entre gentileza e brutalidade é nosso. E não há sequer uma redenção possível [incompleta, longe de qualquer ideal] enquanto não estivermos dispostos a encarar de frente aquilo que a sentença contra o Tiradentes exprime.

2 comments:

Renata Lins said...

Gostei "de morte natural para sempre"

Paulodaluzmoreira said...

O texto é cheio dessas hipérboles de melodrama, tipo vilão de Disney. Mas o homem foi mesmo enforcado e esquartejado e suas partes apodreceram em vias públicas. Em Ouro Preto dizem que a cabeça dele sumiu e há mil lendas sobre quem teria roubado a cabeça de Tiradentes.