Tuesday, May 07, 2013

Manual de Poeta em três lições de treze minutos


Lição 1: como escrever um texto de poética



A. Use e abuse de substantivos de cunho religioso/ritualístico, como:

Ritual, comunhão, irmandade, o sagrado, o profano, transcendência, sacerdote, espírito, fantasmas, mácula, manto, oração, promessa, heresia.


2. Na hora de usar adjetivos, prefira as palavras proparoxítonas. Se não der para ser uma proparoxítona, que sejam pelo menos palavras de umas três sílabas. Alguns exemplos:

ritual sarcástico, comunhão orgiástica, irmandade labiríntica, a transcendência fálica, o sacerdote babélico, fantasmas sáficos, oração drástica.


3. Volta e meia combine 1 e 2 em oxímoros chiques como:

paternidade orfã, iniciação terminal, oratória blásfema, mácula regeneradora, fantasmas de carne e osso, sacerdotes orgiásticos, manto que desnuda e por aí vai.


4. Pronto você já tem os elementos básicos do seu texto, mas não se esqueça de um ponto essencial. Você precisa agora ser enfaticamente caga-regra. Se isso não for compatível com o seu temperamente, experimente começar frases assim:

A poesia só pode existir…
A poesia admite nada além de…
Tudo na poesia…
O poeta não habita a esfera do…
Só poetas que realmente…
São completamente fúteis as tentativas vãs de fazer da poesia algo que não seja…


5. Você deve mencionar vários poetas mas escolha pelo menos um dos seguintes patriarcas, que você deve mencionar:

Charles Baudelaire
Stéphane Mallarmé
Ezra Pound
T.S. Elliot
Vladimir Maiakóvski

E adicione pelo menos um poeta qualquer de antes do século XIX.


6. Vamos colocar tudo o que aprendemos em prática? Lá vai:

A poesia só pode existir onde a oratória blásfema se encontra com a mácula regeneradora da palavra no tecido sensível de um manto que desnuda os fantasmas de carne e osso que habitam nossa vida vazia e anti-tântrica. Tudo na poesia é da lei da desobediência.

O poeta não habita na esfera dessa paternidade órfã que dessensibiliza o humano e destrói o direito de seguir a regra da transgressão. Ele não pode fazê-lo sem deixar então de ser poeta e se transformar num mero arranjador de flores apodrecidas. 

A ordem transgressora de Pound, o erotismo sacro de Bashô. Mallarmé de pijamas, Diderot de cuecas, Góngora de biquini e Homero sem filtro solar. Ou então, nada valerá a pena.  



3 comments:

Paulodaluzmoreira said...

"Essa panacéia abominável da construção."
Sérgio Buarque de Holanda

André Tessaro Pelinser said...

Eu posso jurar que o item 6 você não inventou! Deve ter tirado de um daqueles livros lindos pós-estruturalistas, onde até a estrutura sujeito-verbo-objeto é pós-ta de lado.
Ri muito!

Paulodaluzmoreira said...

É naquele espírito do Cartola, André: de rir para não chorar. Você sabe como a gente, por força do ofício, é obrigado a ler coisas que a gente abomina. Pois é, quando eu leio umas dez páginas assim, eu me des-in-spiro!