Sunday, February 08, 2009

Hilda Hilst

Está ainda disponível na internet entrevista de Hilda Hilst para a CULT. Era uma escritora admirável, no pouco que eu li da sua obra uma escritora magnífica, sempre um pouco aborrecida com a pouca repercussão da sua obra. Deixo só uma resposta dela:

- Você nomeia Deus de muitas maneiras: "Grande coisa obscura", "Cara cavada", "Máscara do nojo", "Cão de pedra", "Superfície de gelo encravada no riso". Sua concepção de Deus se aproxima da do poeta alemão Rainer Maria Rilke, do Deus imanente a todas as coisas, do "Deus coisificado"?
- Não é bem isso. O meu Deus não é material. Deus eu não conheço. Não conheço esse senhor. Eu sempre dizia que Ele estava até no escarro, no mijo, não que Ele fosse esse escarro e esse mijo. Há uma coisa obscura e medonha nele, que me dá pavor. Ele é uma coisa. Se bem que depois que eu li Heidegger, e releio sempre, não consigo mais falar "coisa". Heidegger escreveu um livro enorme só para falar o que é uma coisa. Mas esse tipo de conversa você não pode pôr na revista. As pessoas ouvem falar em Deus e se chateiam. Tem que falar de coisas normais. Só quando o Paulo Coelho fala em Deus é que as pessoas escutam.

2 comments:

sabina anzuategui said...

Ela era uma figura. Por sua causa, criei birra de um vício jornalístico de comentar "além de grande escritora, foi também uma bela mulher".

Fico esperando alguém escrever "Paul Auster, além de simpático escritor, é também um belo homem". Ou "Amos Oz, além de grande escritor, poderia ser um belo homem, se não fosse tão baixo".

Paulodaluzmoreira said...

A literatura brasileira nao deveria precisar de quotas para dar espaco as suas escritoras. Eh uma quase geraçao [algumas um pouco mais velhas ou novas] incrivel: Cecilia Meirelles, Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. A obra da HH eh muito forte na poesia, no teatro [dizem; eu nao li] e na prosa. Mas o escritor em geral tem que pisar em ovos porque essa coisa da pauta de imprensa eh dose. Acabam repetindo as mesmas coisas 30 bilhoes de vezes e vc vira aquilo nos olhos dos outros. Um escritor que eu estudo [Juan Rulfo] chegou ao ponto de [com toda a razao] esconder que conhecia William Faulkner, porque queriam justamente transformar Rulfo no "seguidor de Faulkner no Mexico". E quem eh que em sa consciencia quer ser chamado de seguidor de alguem?