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Kafka e Drummond

“No meio do caminho”
foi primeiro traduzido
por um judeu da Hungria.
“Um maluco de Budapeste”,
diziam.

Preso depois numa ilha de rio,
condenado a construir com as mãos
um edifício a ser demolido
logo depois do último arremate,
“o maluco” aproveitou um intervalo
entre arremate e demolição
e veio parar no Brasil.

Aqui pediu ao poeta funcionário
que o guiasse pelo labirinto do Estado Novo
em busca de um par de vistos
para a mãe e a noiva,
ainda na Hungria.

“Tivesse encontrado mais três homens
como o poeta da pedra
e as duas não morreriam”,
escreveu Paulo Rónai.

Lendo um dia um artigo do húngaro,
Drummond de repente entenderia, lívido:
Kafka sou eu! Sou eu, Kafka!
[que nem Rónai,
nem Carpeaux,
nem Rosenfeld
conheciam].

Comments

Interessante e misterioso.
Há algo realmente histórico no poema?

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