Monday, May 08, 2017

Anti-resenha: Dora Bruder de Patrick Modiano

De repente, lendo Dora Bruder de Patrick Modiano, tenho um possível momento de iluminação. Isso acontece quando o narrador engata uma série de rápidas biografias de escritores obscuros, medianos e famosos que cruzaram antes dele os mesmos lugares que ele mesmo e a sua obsessão/protagonista Dora percorreu antes de desaparecer para sempre na fumaça do Holocausto. O narrador se lembra desses escritores que tentaram dizer qualquer coisa sobre a época em que viviam e foram esmagados e tacitamente os compara consigo mesmo, escritor obcecado por certos lugares de Paris naquele período, lugares que tinham sido passagem da jovem protagonista que dá nome ao livro. No mesmo capítulo ele recorda também uma viagem num camburão da polícia e à delegacia, viagem feita por ele mesmo em plena adolescência, [des]acompanhado pelo pai. O pai que o ignorava ostensivamente dentro do aperto do camburão, o pai que havia ele mesmo chamado a polícia para dar queixa do filho que tinha sido mandado pela mãe para cobrar do pai pela pensão que ele não pagava. O narrador compara a sua dor com uma picada de um alfinete em comparação com tantos outros que, como a sua protagonista, foram pegos pelo pente fino do inferno que era o reino nazista em plena 2a Guerra Mundial. Gente que, como a protagonista, fizeram uma viagem semelhança à polícia para nunca mais voltar.
Foto minha: Belo Horizonte Descasca
De repente entendi porque Belo Horizonte [minha protagonista, minha obsessão] faz questão de caçar e reduzir a escombros todas as casas da área central da cidade, casas que nem chegaram a fazer noventa anos na maioria das vezes. Além do motivo óbvio e banal da especulação imobiliária, há também a determinação em desalojar todos os nossos fantasmas, enterrar todos os rios transformados em esgoto, cobrir com asfalto todas as pedras que vieram arrancadas das pedreiras em volta da cidade, cortar todas as árvores um pouquinho mais velhas. Tudo isso é feito em prol de borrar com ênfase aquilo que o tempo e a nossa amnésia tratam de apagar em nome de perpetuar: o moinho de gentes que um dia se chamou senzala, que depois passou a ser chamado de favela, que permanece moendo gente pelas bordas da cidade até hoje.
Patrick Modiano aponta insistentemente [obsessivamente] para os arquivos queimados e para os nomes apagados para apontar [em silêncio eloquente] a determinação da França em se imaginar "apenas" ocupada e portanto desculpada pela subserviência, e mesmo a animada participação de muitos franceses, à máquina de destruição imposta por um punhado de soldados de Hitler. E nós?

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