Friday, December 05, 2008

Repente 1

Propus à Sabina Anzuategui um repente de citações e ela gostou da idéia. Ela postou um texto do Peter Handke e eu contrapostarei o final do conto "Barn Burning" de William Faulkner em uma tradução [infelizmente] ainda inédita feita por mim. O menino protagonista do conto acaba de denunciar seu próprio pai ao proprietário das terras onde eles vivem e foge correndo da fazenda. Faz isso quando percebe que o pai vai, mais uma vez, botar fogo em um celeiro como forma de revolta/protesto/vingança contra sua própria miséria e foge de casa.

"À meia-noite ele estava sentado na crista de um morro. Ele não sabia que era meia-noite e não sabia o quanto havia caminhado. Mas já não havia clarão atrás e ele estava sentado, com as costas para o que ele chamara de qualquer maneira lar ainda que por quatro dias, seu rosto apontado para a mata escura onde ele entraria quando recuperasse o fôlego, pequeno, tremendo com regularidade no frio da escuridão, abraçando-se com os braços metidos dentro do que sobrara da sua camisa puída, a tristeza e o desespero agora não mais terror e medo mas apenas tristeza e desespero. Pai. Meu pai, ele pensava.
- Ele foi um bravo! O menino falou em voz alta de repente, em voz alta mas não alto, não mais que um sussurro: Ele foi! Ele esteve na guerra! Ele esteve na cavalharia do Cornel Sartoris! sem saber que seu pai tinha ido para aquela guerra como um soldado raso no velho sentido europeu da expressão, sem vestir um uniforme, aceitando a autoridade e concedendo fidelidade a homem algum, exército ou bandeira alguma, indo para a guerra como fez Malbrouck : pelo saque – não significando nada e menos que nada se a presa de guerra era do seu próprio exército ou do inimigo.
As lentas constelações seguiam o seu curso. Em pouco chegaria a madrugada e o nascer do sol e ele teria fome. Mas então seria amanhã e agora o que ele tinha apenas frio, e caminhar era uma solução para isso. Seu fôlego já mais tranqüilo agora, decidiu levantar e seguir emfrente, e então percebeu que tinha estado dormindo porque sabia, que era quase alvorada e a noite estava quase no seu fim. Ele sabia por causa dos curiangos. Estavam por toda a parte agora, entre as árvores escuras lá embaixo, constantes, inflexíveis e incessantes, de tal forma que, à medida em que o instante em que eles teriam que dar lugar aos pássaros do dia aproximava-se cada vez mais, já não havia intervalo algum entre o vôo de um e de outro. Ele levantou-se. Estava um pouco duro, mas caminhar seria solução para isso também como seria para o frio, e logo chegaria o sol. Ele desceu o morro, na direção da mata escura na qual os liquidas vozes prateadas dos pássaros chamavam incessantes – o ritmo rápido e urgente do urgente coração cantante da noite do final da primavera. Ele não olhou para trás."

1 comment:

sabina anzuategui said...

Interessante, o estilo é muito diferente do Peter Handke, mas o tema é próximo. No livro que citei, ele faz uma narração "abstrata" da vida da mãe, tentando encontrar na vida dela traços do que seriam todas as mulheres daquela região naquela época. Parece estranho mas funciona. Vou continuar citando o mesmo livro, porque há várias passagens sobre a humilhação da pobreza que me marcaram muito.