Monday, June 22, 2015

Filhos que resgatam pais: Cruz e Souza

Ando às voltas com o maravilhoso João da Cruz e Souza, pedra no sapato de quem acha que a poesia modernista começou em 1922, quando começou a vanguarda que adotou esse nome tão ambíguo. Cruz e Souza dedicou o poema abaixo a seu filho. Gosto muito das suas redondilhas rimadas em duplas, esquema que Cruz e Souza usa com igual perícia e astúcia no também maravilhoso "Litania dos Pobres". E gosto principalmente da ideia de que os filhos resgatam seus pais dos seus próprios infernos e demônios. Isso creio que acontece pelo menos certos pais, pelo menos parcial ou provisoriamente. São os que têm sorte. Tem sido assim comigo há mais de 10 anos. Sou um sortudo.

  

Recolta* de estrelas                                *colheita
(1 out. 1895)
A Tibúrcio de Freitas

Filho meu, de nome escrito
Da minh'alma no Infinito.

Escrito a estrelas e sangue
No farol da lua langue...

Das tuas asas serenas
Faz manto para estas penes.

Dá-me a esmola de um carinho
Como a luz de um claro vinho.

Com tua mão pequenina
Caminhos em flor me ensina.

Com teu riso fresco e suave
Oh! Dá-me do encanto a chave.

Do teu florão de Inocência
Dá-me as rosas da Clemência.

Como outro Jesus bambino,
Esclarece-me o Destino.

Traz luz ao mundano pego*                                                              *abismo ou caverna no fundo do mar
Onde sigo, mudo e cego...

Com teus enleios e graça
Nos meus cuidados perpassa.

Este peito acende, inflama
Na mais sacrossanta chama.

Faz brotar nevados lírios
Das cruzes dos meus martírios.

Dá-me um sol de estranho brilho,
Flor das lágrimas, meu filho.

Rebento triste, orvalhado
Com tanto pranto chorado.

Filho das ânsias, das ânsias,
Das misteriosas fragrâncias,

Filho de aromas secretos
E de desejos inquietos.

De suspiros anelantes
E impaciências clamantes.

Filho meu, tesouro mago
De todo esse afeto vago...

Filho meu, torre mais alta
De onde o meu amor se exalta.

Ânfora azul, de onde o incenso
dos sonhos se eleva denso.

Constelação flamejada
De toda esta vida ansiada.

Crisol onde lento, lento                                                                 *cadinho
Purifico o Sentimento.

Íris curioso onde giro
E alucinado deliro.

Signo dos signos extremos
Destes tormentos supremos.

Orbita de astros onde pairo
E em febre de luz desvairo.

Vertigem, vertigem viva
Da paixão mais convulsiva.

Traz-me unção, traz-me concórdia
E paz e misericórdia.

Do teu sorriso a frescura
Rios de ouro abra, na Altura.

Abra, acenda labaredas,
Iluminando-me as quedas.

Flor noturna da luxúria
Brotada de haste purpúrea.

Dos teus olhos dadivosos
Escorram óleos preciosos...

Óleos cândidos, dos mundos
Maravilhosos, profundos.

Óleos virgens se derramem
E o meu viver embalsamem.

Embalsamem de eloqüentes,
Celestes dons prefulgentes*.                                                          *que brilham primeiro ou mais

Para que eu possa com calma
Erguer os castelos da alma.

Para que eu durma tranqüilo
Lá no sepulcral Sigilo.

Ó meu Filho, ó meu eleito
Deslumbramento perfeito.

Traz novo esplendor ao facho
Com que altos Mistérios acho

Meu Filho, frágil e terno,
Socorre-me do atro* Inferno.                                                           *escuro, sinistro

Onde vibram gládios duros
Por ergástulos* escuros.                                                                  *calabouço

E cruzam flamíneas, fortes,
Negras vidas, negras mortes.

Onde tecem Satanases
Sete círculos vorazes...

3 comments:

O HOMEM SEM MEDO said...

E o filho resgata o pai....à Dante?

O HOMEM SEM MEDO said...

Após sua publicação na rede social reitero aqui minha fala de não-pai, ainda admirando a beleza plausível do ato, só digo aqui, com mais propriedade do aspecto literário do Cruz e Souza, que tem parecidas intervenções humanas com as do, também sem-período, Augusto dos Anjos. Livre de sua época, livre em sua época. Há muito conquista meu gosto e ha muito incita o pensamento dos olhos abertos no mundo.

O HOMEM SEM MEDO said...

Após sua publicação na rede social reitero aqui minha fala de não-pai, ainda admirando a beleza plausível do ato, só digo aqui, com mais propriedade do aspecto literário do Cruz e Souza, que tem parecidas intervenções humanas com as do, também sem-período, Augusto dos Anjos. Livre de sua época, livre em sua época. Há muito conquista meu gosto e ha muito incita o pensamento dos olhos abertos no mundo.