Thursday, February 21, 2013

Fazendo auto-stream of consciousness

Vendo Sofie Gråbøl como Sarah Lund no drama policial Forbrydelsen, penso em como Fernanda Torres podia fazer coisas muito melhores do que essas comédias histéricas da Rede Bobo.
Lendo uma entrevista penso comigo mesmo na diferença entre dizer que "de boas intenções o inferno está cheio" e citar Pascal dizendo que ”Nunca se faz tão perfeitamente  o mal como quando se faz de boa vontade”?

Escutando Fiona Apple dizer num determindado momento em uma canção recente que "My teardrops seasoned every plate," eu penso no poder extraordinário que pode ter melodrama sincero, sem ironia engraçadinha.

Meu irmão me lembra que fez um ano ontem que meu pai morreu. Me lembraram na terça que no dia 16, dia em que finalmente consegui pegar meu livro no correio, recebia ano passado a notícia da minha promoção, matéria mais importante do que parece, porque não ser promovido significava perder o emprego. Meu pai morreu quatro dias depois da minha promoção e eu não podia sair dos EUA por causa do Green Card, outra novela sem graça que me empatou quase cinco anos. E aí eu me lembro da brincadeira do meu pai de me chamar de "filho do sétimo dia" porque eu desaparecia e aí quando ele morresse eu só ia saber a tempo de ir à missa do sétimo dia. Pois bem. Ainda que eu tenha recebido a notícia no mesmo dia em que ele morreu, para mim não deu nem para isso. Só me sobrou esse poema melopatético:

Hino do Filho de Sétimo Dia

"¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son."
– Pedro Calderón de la Barca, 'La vida es sueño'
Saio cedo,
não me importa o frio,
nem me incomoda o medo.
Sempre fui assim:
esse homem esquisito
que ninguém não podia entender.

Desastrado improviso,
obra má, de má argila,
sou também irmão
e seu semelhante.

Meu pai já morreu;
o que ele me deu
e o que ele me tirou
inteiram a fôrma
exata da minha dor.

Meu pai aviava,
meticuloso e ardente,
o elixir da longa morte
que hei de tomar
todo dia de manhã,
daquela segunda-feira
há sete dias passada
até o resto da vida.

Começou a temporada de caça!
Chegou minha hora!
Chegou minha vez!
Frenesi ou ilusão,
sombra ou ficção:
todos os meus sonhos
dançam sua morte
com os pés no chão;
são cinzas, cabem agora
na palma da minha mão!






2 comments:

sabina anzuategui said...

fiquei comovida com a reflexão.

também gostei do poema, embora estranhe (em qualquer caso) os pontos de exclamação.

Paulodaluzmoreira said...

Meio exaltados os pontos, né? Acho que é o clima de melodrama ;).