Wednesday, October 10, 2018

Quando a barra pesa, só Carlos Drummond de Andrade resolve 3

Uma boa parte da melhor poesia de Carlos Drummond de Andrade foi escrita num período difícil dentro do Brasil e fora. Dentro encarávamos a Revolução de 30, a guerra civil em 1932, o Integralismo, o golpe em 1937, a ditadura do Estado Novo entre 37 e 45. Fora assistíamos o fascismo de Mussolini, o Estado novo de Salazar, a ascensão do nazismo, a guerra civil espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Não é por nada que os poemas de Drummond muitas vezes oscilavam entre a tristeza desesperançada e os apelos por esperança e luta. 

O poema de hoje é homenagem a uma vítima da estupidez fascista. A Falange Franquista fuzilou Federico García Lorca torpemente e foi nesse sistema de mortes e agressões gratuitas que ao final da Guerra Civil chegou-se a um número impressionante de mais de meio milhão de mortes por fuzilamento. A estrofe final parece para mim estar antecipando as melhores canções de protesto de Chico Buarque, falando de um dia claro composto na treva de hoje. A interpretação é um pouco lacrimosa demais para o Drummond da minha imaginação mas vale a pena:

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A Federico García Lorca (1948)
Sobre o teu corpo, que há dez anos          
se vem transfundindo em cravos          
de rubra cor espanhola,
aqui estou para depositar          
vergonha e lágrimas
   
Vergonha de há tanto tempo          
viveres – se morte é vida –
sob o chão onde esporas tinem          
e calcam a mais fina grama          
 e o pensamento mais fino          
de amor, de justiça e paz.
         
Lágrimas de noturno orvalho,          
não de mágoa desiludida,          
lágrimas que tão-só destilam           
desejo e ânsia e certeza          
de que o dia amanhecerá.
          
(Amanhecerá.)
         
Esse claro dia espanhol,          
composto na treva de hoje,          
sobre o teu túmulo há de abrir-se,          
mostrando gloriosamente
- ao canto multiplicado
de guitarra, gitano e galo –          
que para sempre viverão
os poetas martirizados.     

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