Monday, February 08, 2010

Poema meu: Passagem

[Um dia há pelo menos 10 anos atrás numa manhã ensolarada eu assitia uma aula meio devagar na Letras e comecei esse arremedo de Walt Whitman. Depois numa manhã sozinho num café de Belo Horizonte e um par de horas depois, enquanto esperava a hora de dar uma aula dentro do carro, terminei a primeira versão dele. E continuo revisando o safado desde daquela época. Deve ser a maldição do Leaves of Grass...]


arco de sangre, puente de latidos,
llévame al otro lado de esta noche,
adonde yo soy tú somos nosotros,
al reino de pronombres enlazados…
Octavio Paz



Olho pra fora, não fujo, não quero mais me sentir outro, de fora;
quero a comunhão barata do barulho dos carros, da gente, do rádio.
Ainda está tudo do lado de fora, do outro lado da mesa, o outro lado da porta de vidro:
gente dando as mãos, atravessando a rua, chorando, sorrindo,
sozinhos, em bando, em dupla,
nascendo, amadurecendo, secando, morrendo.
Um par de folhas de um broto cai no chão,
a chuva cai e leva as duas juntas,
que escurecem podres e já não são mais folhas,
tudo o que há e que houve e que há de ser depositando-se em centenas de anos,
em camadas no sangue, nos ossos, na carne, na língua, tão minha quanto de quem mais quiser,
minha e dos dois garotos que passam lá fora conversando um futuro besta,
minha e da mulher que passa carregando seus desapontamentos nas costas,
minha e do senhor que se arrasta como um deus de chapéu e terno riscado,
minha e de você que me lê agora e é assim meu quase irmão, meu pai e meu filho
e reconhece aqui agora alguma coisa de dentro de um quase par,
um avesso que quase completa e termina o que você é, foi, e pode ainda ser ou não ser.

Mas a questão posta aqui e agora na minha frente é outra:
é sair de dentro da angústia cega e fazer papel e tinta da dor surda
que encharca o corpo e aperta cabeça e peito,
porque feito papel e tinta este grito tartamudo,
que ninguém vê nem quando me olha bem de frente,
vai enfrente e me deixa livre desta falta do que ainda não fui.

O barulho lá fora faz uma pausa de repente,
mas o alicate de cabo amarelo continua apertando a coluna
e o coração vermelho e cansado continua queimando com o estômago aceso.
Outros barulhos aqui dentro corroem o silêncio que cresce de dentro
e dizem que existe saída, ainda que não exista alívio em sair pra vida.

Então eu vou: faço a tal passagem de uma só vez –
chamem de morte, chamem de amor,
chamem de lei natural das coisas da terra –
é uma passagem e é mais e menos:
tão pequena que quase desaparece no ar,
mesmo com o sol a pino.
E está aqui, bem na minha frente,
mais alta que este muro polvilhado de cacos de vidro:
um silêncio mais alto que o barulho dos caminhões e ônibus descendo a rua.

Escorre pelas grades da janela da sala,
contorna o vidro e salta;
cai no jardim salpicado de guimbas de cigarro e copos de plástico.
Cá embaixo,
na manhã emaranhada pelo sol do dia 10 de fevereiro,
vejo ainda a sala
onde ainda estou e já não estou
e onde 23 outros eus doem
espremidos entre o que ainda podem
e o que já não podem em um mundo, uma vida e um corpo
que não param de envelhecer nem um segundo.
Aqui embaixo,
sou a experiência de uma pedra
e a inocência de um torrão de terra,
e me redivido em mil outras coisas menores,
também possuidoras de suas próprias definições para o amor
e mortas como eu.
Lá e aqui o mundo das idéias não passa de um vapor quente
que se desapega do chão quando o sol esquenta,
onde tudo é como este poema,
escrito e inescrito além e aquém de si mesmo,
dentro e fora ao mesmo tempo.

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