Thursday, February 04, 2016

Sobre línguas e inocências

O escritor açoriano João de Melo abriu um encontro de escritores dizendo o seguinte:

João de Melo
“Viajamos numa língua comum que nunca foi instrumento de dominação, nem centro de qualquer colonialismo básico, e muito menos de um império que nunca existiu. Reclamamos, pois, a inocência histórica da língua portuguesa. Com ela, invocamos com solidariedade que se irmanou num sentimento fraterno dos povos, aquém e além de sistemas políticos e sociais”.

Não tenho acesso ao discurso inteiro, então não quero ficar aqui tripudiando do escritor, mas acho que há duas maneiras diferentes de respondar àqueles que falam em inocência da língua portuguesa para tentar manter viva, entre outras coisas, a ideia absurda de uma colonização gentil promovida por Portugal. 

Uma primeira maneira é aceitar os termos da proposição feita e contestá-la em seus próprios termos. Nesse sentido podemos, por exemplo, deixar que o Marquês de Pombal fale por si mesmo:

Parágrafo Sexto da Lei do Diretório dos Índios do Marquês de Pombal de 1757: "Sempre foi máxima inalteravelmente praticada em todas as Nações, que conquistaram novos Domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu próprio idioma, por ser indisputável, que este é um dos meios mais eficazes para desterrar dos Povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes; e ter mostrado a experiência, que ao mesmo passo, que se introduz neles o uso da Língua do Príncipe, que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração, e a obediência ao mesmo Príncipe. Observando pois todas as Nações polidas do Mundo, este prudente, e sólido sistema, nesta Conquista
Olha o Pombal aí
se praticou tanto pelo contrário, que só cuidaram os primeiros Conquistadores estabelecer nela o uso da Língua, que chamaram geral; invenção verdadeiramente abominável, e diabólica, para que privados os Índios de todos aqueles meios, que os podiam civilizar, permanecessem na rústica, e bárbara sujeição, em que até agora se conservavam. Para desterrar esse perniciosíssimo abuso, será um dos principais cuidados dos Diretores, estabelecer nas suas respectivas Povoações o uso da Língua Portuguesa, não consentindo por modo algum, que os Meninos, e as Meninas, que pertencerem às Escolas, e todos aqueles Índios, que forem capazes de instrução nesta matéria, usem da língua própria das suas Nações, ou da chamada geral; mas unicamente da Portuguesa, na forma, que Sua Majestade tem recomendado em repetidas ordens, que até agora se não observaram com total ruína Espiritual, e Temporal do Estado."


Podemos ainda chamar a atenção para não mais que quatro palavras do nosso léxico, e enfatizar especificamente a relação peculiar entre seus sentidos atuais e seus antigos usos na longa e triste época da escravidão [pouco menos de quatro séculos] durante o domínio português e depois dele ainda por mais de sessenta anos no Brasil indenpendente:

1. BOÇAL: rude, grosseiro, ignorante, inculto, sem sentido
E
escravo recém-chegado da África que ainda não falava o português.

2. LADINO: astuto, esperto, espertalhão, pilantra, manhoso

escravo africano ou índio que já havia sido aculturado em contraste ao BOÇAL.

3. CRIOULO: usado para denotar uma pessoa da cor negro, frequentemente com conotações negativas
E
escravo nascido no Brasil, em contraste ao LADINO e ao BOÇAL.

4. MOLEQUE: menino, garoto, patife, safado, sem integridade, canalha, mau-caráter, irresponsável, menino que vive nas ruas, garoto travesso, brincalhão, gozador, trocista

criança escrava, nascida de uma mãe escrava ou nascida livre porém sequestrada, confinada e forçada à escravidão.

Foto de Augusto Stahl de 1865
 Mas há uma segunda forma de contestar essa afirmativa meio estapafúrdia, negando sua premissa básica, que é essa relação simplista entre a língua que falamos e a história dos estados nacionais aos quais estamos vinculados. A personalização de uma língua, chamada de "inocente" como se fosse um ser humano e como se então tivesse uma responsabilidade moral com relação ao que se faz com a língua como instrumento é absurda. É mais ou menos como culpar um martelo pelo que "ele" quebra ou uma faca pelo que "ela" corta. Língua nenhuma é inocente. A relação entre a língua e os que a usam é bem mais complexa que a relação entre um martelo e um carpinteiro ou entre um pecado e um pecador. Usamos a língua e ela nos usa, moldamos até certo ponto a língua que nos moldou também até certo ponto. Com ela amamos, odiamos, salvamos, matamos, libertamos e aprisionamos uns aos outros e nós mesmos. E o respeito por outro ser humano e pelos seus direitos não é apenas uma simples questão de escolher ou de inventar um léxico "inocente" - quem dera as coisas fossem tão fáceis.   

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