Skip to main content

Manual de anti-ajuda de Franz K.





"A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram."
Clarice Lispector



Às vezes é preciso saber que há
também a hora do lixo e é preciso
ser concreto como uma anta
e cego como um prego.
Já dizia um escravo na barra do tribunal:
“no galinheiro a barata não tem vez”.
Explicar a galinha não absolve
nem liberta a barata do bico do sapato,
nem do açúcar, da farinha e do gesso.

A faca corta, a pedra quebra,
a fome não depende de ponto de vista,
mesmo sendo toda sua não se dissolve
nem no seu reconhecimento,
nem na sua ignorância,
nem mesmo no seu desespero.

Mesmo que você queira
com força, persistência e engenho
poder com a fome, a faca e a pedra
o açúcar, a farinha, o gesso,
a galinha ou o bico do sapato,
quando você acorda,
escova os dentes e sorri para o espelho dizendo:
“eu posso com a dor e a fome,

com a faca que corta minha pele
e a pedra que amassa meu dedo
com o açúcar, a farinha e o gesso,
com a galinha e o bico do sapato”,
mesmo assim, você ainda assim não pode, José.

Senão então,
vejamos o bilhete no bolso do suicida:
“Não faço exame,
não tenho câncer;
não tenho câncer,
não estou morrendo;
não estou morrendo,
continuo aqui, vivo,
quieto no meu canto.
PS. Açúcar, farinha e gesso
misturadas em partes iguais.”

Comments

Popular posts from this blog

Protestantes e evangélicos no Brasil

1.      O crescimento dos protestantes no Brasil é realmente impressionante, saindo de uma pequena minoria para quase um quarto da população em 30 anos: 1980: 6,6% 1991: 9% 2000: 15,4%, 26,2 milhões 2010: 22,2%, 42,3 milhões   Há mais evangélicos no Brasil do que nos Estados Unidos: são 22,37 milhões da população e mais ou menos a metade desses pertencem à mesma igreja.  Você sabe qual é? 2.      Costuma-se, por ignorância ou má vontade, a dar um destaque exagerado a Igreja Universal do Reino de Deus e ao seu líder, Edir Macedo. A IURD nunca representou mais que 15% dos evangélicos e menos de 10% dos protestantes como um todo. Além disso, a IURD diminuiu seu número de fiéis   nos últimos 10 anos de acordo com o censo do IBGE, ao contrário de outras denominações, que já eram bem maiores. 3.      Os jornalistas dos jornalões, acostumados com a rígida hierarquia inst...

Poema meu: Saudades da Aldeia desde New Haven

Todas as cartas de amor são Ridículas. Álvaro Campos O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia, mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia porque não corre minha aldeia. Poucos sabem para onde vai e donde vem o ribeirão da minha aldeia, 
 que pertence a menos gente 
 mas nem por isso é mais livre ou menos sujo. O ribeirão da minha aldeia 
 foi sepultado num túmulo de pedra para não ferir os olhos nem molhar os inventários da implacável boa gente da minha aldeia, mas, para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
 a memória é o que há para além do riberão da minha aldeia e é a fortuna daqueles que a sabem encontrar. Não penso em mais nada na miséria desse inverno gelado estou agora de novo em pé sobre o ribeirão da minha aldeia.

Os godos e o engodo racial em Machado de Assis e Lima Barreto

Muita gente acha que questões raciais estão ausentes da literatura brasileira mais antiga porque não sabe ver. Trago aqui dois exemplos clássicos, de mais de cem anos, de discussão certeira sobre as falácias do embranquecimento e da valorização da cor branca no Brasil. Os dois exemplos se apoiam num mesmo termo racial, usado de modo sarcástico, em Machado de Assis e em Lima Barreto: "godo", que se refere às tribos bárbaras [ostrogodos e visigodos] que invadiram e tomado entre partes do império romano como a península ibérica e a Itália, vira um sinônimo irônico para branco nos dois textos. Machado de Assis com a ironia fina peculiar lista entre as "moléstias mentais" diagnosticadas por Simão Bacamarte em "O alienista"não apenas a mania do embranquecimento, mas também a hipócrita cegueira a respeito dessa mania: "Alguns cronistas crêem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita...