Dois pesadelos recorrentes me perseguiram quando eu fui embora do Brasil. O primeiro acontece na velha casa de três andares de madeira onde eu morava. Eu estou andando, apressado, descendo as escadas até chegar num porão velho, escuro e sujo. Ele está logo atrás de mim. Eu não vejo, não ouço nada além dos meus passos mas sei que ele vem descendo as escadas e vem me pegar. Eu corro e me encolho entre duas caixas de papelão vazias mas não consigo me esconder completamente porque sou grande demais. Então eu me levando apressado e bato com a cabeça numa viga de madeira do teto. Junto com a dor uma onda de calor desce pela minha cabeça a partir do ponto do choque com a viga. Eu caio no chão coberto de poeira, de barriga para cima, com as pernas e os braços abertos e quando passo os dedos na cabeça e sinto o sangue mas não vejo nada nas mãos. De repente eu não consigo mais mexer braços e pernas e ouço um barulho abafado, discreto, indiferente, inconfundível: são os ratos se aproximando. Levanto a cabeça e não vejo nada mas sei que são eles, cada vez mais próximos. Quero gritar, mas estou completamente afônico. Escuto passos no assoalho de madeira no andar acima do porão e tento gritar mas só consigo emitir um som abafado. Os ratos são atraídos pelo brilho dos meus olhos, que eu não consigo fechar. De repente um rato imenso, gordo, bigodudo pula na minha barriga. Sem pressa e sem medo ele se aproxima do meu rosto. Finalmente eu consigo soltar um grito e acordo gritando desesperado. O segundo pesadelo acontece no Brasil. Eu estou andando com ela na beira da praia, no inverno. Ela está como era antes, linda. Estava ali de novo comigo por algum motivo que eu não sabia explicar. Eu estou muito feliz mas incomodado porque não sei o que dizer. Finalmente abro a boca e comento que estou feliz de estar com ela e que ela está de novo viva e linda ali na minha frente depois de tantos anos de sofrimento físico. E mal acabo de falar e percebo que cometi um grande erro, porque ela não sabia que tinha morrido. Ela me olha fixamente e o impacto da notícia é terrível: ela passa da alegria serena para a mais profunda tristeza e decepção. Percebo também que a barriga dela começa a inchar de novo. Eu não sei o que fazer para voltar atrás. Não há nada o que fazer? Eu não sei mas tenho medo de tentar alguma coisa e piorar ainda mais a situação. Ela vai inchando toda na minha frente até começar a verter um líquido verde viscoso pela barriga e eu não consigo fazer nada.
Todas as cartas de amor são Ridículas. Álvaro Campos O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia, mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia porque não corre minha aldeia. Poucos sabem para onde vai e donde vem o ribeirão da minha aldeia,
que pertence a menos gente
mas nem por isso é mais livre ou menos sujo. O ribeirão da minha aldeia
foi sepultado num túmulo de pedra para não ferir os olhos nem molhar os inventários da implacável boa gente da minha aldeia, mas, para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
a memória é o que há para além do riberão da minha aldeia e é a fortuna daqueles que a sabem encontrar. Não penso em mais nada na miséria desse inverno gelado estou agora de novo em pé sobre o ribeirão da minha aldeia.
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