Monday, May 11, 2015

Para não dizer que não falei do dia das mães

A tradição narrativa ocidental é implacável com as mulheres e todas as personagens femininas de grande parte da produção narrativa (em especial aquela ligada à indústria cultural) ainda se enquadra em três rígidos grupos:

1. A virgem [que na produção contemporânea pode não ser mais anatomicamente virgem], objeto de "desejo elevado" dos personagens masculinos, que como pais precisam defender e como pretendentes precisam cortejar esse tipo. Hoje ela pode até andar fazendo faculdade, trabalhando e coisa e tal, mas continua uma mulher "séria" ciente do "seu valor" e em busca do pretendente certo. Usando as figuras do velho conto de fadas, o maior desafio da virgem ainda é saber separar os "lobos maus" e "vovós pervertidas" dos "caçadores" e "mamãezinha é um anjo bom da sua vida": não se misturam com homens e mulheres "que não prestam" e buscar a boa companhia dos homens e mulheres "direitos".  
Regina Duarte em "Irmãos Coragem"

2. A mãe é objeto de veneração universal [e de versinhos e cartões de mau gosto] justamente pelo seu altruísmo absoluto. Dedicada exclusivamente a servir seus filhos e proteger suas filhas, esse poço de bondade é completamente alijado do desejo sexual masculino, desde que a gente finja que vê os traiçoeiros caminhos da psicologia edipiana. A mãe é a evolução "natural" da virgem que não se perdeu pelos meandros da sexualidade. Seu modelo e ideal infelizmente inatingível e a Nossa Senhora, que, afinal de contas, conseguiu ser mãe sem meter-se com "aquilo"...
Regina Duarte em "Vale Tudo"

3. A destruidora de lares é objeto de pavor e contumaz desprezo [e de uns duzentos nomes feios], porque ela tem uma sexualidade ativa que serve tipicamente para enlouquecer e destruir os homens, afastando-os das virgens e das mães para levá-los à perdição. Quando perde seu apelo sexual [por causa da menopausa], a destruidora de lares [me recuso a usar aqui algum dos vários nomes que Infelicianos, Bolsonáricos e Malafaicos usam para essa figura] transforma-se na também manjada "bruxa", a comedora de bebês, a amante do Diabo desprovida de higiene pessoal, encarquilhada vendedora de maçãs envenenadas.  
Glenn Close se descabelando em "Atração Fatal"



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