Saturday, May 16, 2015

Poesia minha: São muitas as nossas possibilidades

Igreja de São José da Boa Morte em Macacu,
foto de Vítor Gabriel
São muitas as nossas possibilidades:

No coração basta um tiro certeiro;
No pescoço, uma forca bem feita;
Pela boca ou pela veia,
uma injeção ou um copo cheio
de remédio ou de veneno.
Basta um toque dum dedo
num fio desencapado.
Na cabeça basta um saco plástico.
Basta uma lâmina afiada
que corra do pulso ao antebraço.
Longe dos trópicos,
basta uma noite fria
passada ao relento.
Pode-se pular dum lugar bem alto
ou cercar-se de água por todos os lados.
Pode-se dormir com o motor ligado
numa garagem fechada.
Pode-se atirar-se na frente de um trem
ou atirar barranco abaixo o próprio carro.

Ou então basta seguir vivendo
até que o coração pare
ou os rins se estraguem.
Até que venha um câncer
na bexiga, no útero, no seio,
no cólon, no baço, no reto,
no sangue, na pele, no pulmão,
na próstata, no pâncreas, nos rins,
na bendita tireoide.
Até que um pulmão murche
ou um vaso estoure.
Até que nos encontre numa esquina
desprovidos de antibióticos
a tuberculose, essa velha senhora,
ou suas irmãzinhas velhacas,
a pneumonia e a influenza.
Até que leiamos no próprio corpo
um catálogo de inflamações.
Até que os ventos do tempo tragam
as nuvens carregadas de nada da demência
ou as marés de doçura venenosa da diabetes:


São muitas as nossas possibilidades.

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