Wednesday, May 06, 2015

Recordar é viver ou o que o Brasil pode ter a ver com o tal "Cinco de Mayo"

O Cinco de Mayo virou um grande evento nos Estados Unidos, mais ou menos como se fosse um St. Patrick's Day para os Chicanos. Suponho que como andam importando o Halloween e mesmo St. Patrick's para o Brasil, não tardam a importar o Cinco de Mayo também - os restaurantes de comida supostamente mexicana que eu conheci em Belo Horizonte eram "puro gringo", não digo tipo Taco Bell mas pelo menos como a cadeia Chili's. O fato é que as pessoas gostam de festas, gostam de se divertir, gostam de arrumar desculpas para entornar cerveja preta ou tequila e dançar e se agarrar e não vou ser eu que vou ficar bancando o estraga-prazeres. Deixa o povo brincar. Mas não custa aproveitar a data para uma sessão  proverbial de "recordar é viver" e para aprender um pouquinho sobre história mexicana.

Para quem não sabe, depois de ser esculachado pelos Estados Unidos e perder metade do seu território antes de completar trinta anos de conturbada  independência, o porto principal do México foi bloqueado por uma força naval conjunta de espanhóis, ingleses e franceses depois que o presidente Benito Juárez decretou a moratoria da dívida externa do México em 1861. Os franceses, cheios de empáfia e vondade de se consolidar como império global, resolveram ficar, invadir o México inteiro e ainda trazer um príncipe austríaco [primo de Dom Pedro II] para ser imperador do México, com o apoio da igreja católica e dos conservadores mexicanos furiosos com o estado laico e liberal preconizado por Juárez. Com muito custo, com muito sangue, com muita coragem, os mexicanos liderados por Benito Juárez lutaram anos até botar os franceses para correr e fuzilar Maximiliano.

O cinco de maio comemora uma vitória significativa [mas não determinante] dos mexicanos contra aquele que era considerado o melhor exército do mundo na época. A batalha de Puebla aconteceu antes da chegada de Maximiliano ao trono. No México é mais uma festa no estado de Puebla e não tem nada a ver com independência, mas poderia ser uma oportunidade para que o resto da América Latina agradecesse aos mexicanos e especialmente Benito Juárez [que virou herói republicano ou vilão mexicano dependendo do país e que, ainda por cima, era de origem indígena] e deu nome a todos os Juarezes brasileiros e [infelizmente] a um certo Benito Mussolini. Graças a Benito Juárez a América Latina não foi re-colonizada à maneira da África no século XIX, repartida entre potências européias em colônias e protetorados e estados de mentirinha.

Em homenagem a Juárez muitos fizeram versos, entre eles, Fagundes Varela:

VERSOS SOLTOS
Ao General Juarez

Juarez! Juarez! Quando as idades,
Fachos de luz que a tirania espancam,
Passarem desvendando sobre a terra
As verdades que a sombra escurecia;
Quando soar no firmamento esplêndido
O julgamento eterno;
Então banhado do prestígio santo
Das tradições que as epopéias criam,
Grande como um mistério do passado,
Será teu nome a mágica palavra
Que o mundo falará lembrando as glórias
Da raça mexicana!
Quem se atreve a medir-te face a face?
Quem teu vôo acompanha nas alturas,
Condor soberbo que da luz nas ondas
Sacode o orvalho das possantes asas,
E lança um grito de desprezo infindo
Aos milhafres rasteiros?
Que destemido caçador dos ermos
Irá te cativar, ave sublime,
Nessas costas bravias e tremendas
Onde o Grande Oceano atira as vagas
E os vendavais sem peias atordoam
O espaço de rugidos?
Que sicário real, nas matas virgens,
Amplas, sem marcos, sem batismo e data,
Te apanhará, jaguar das soledades?...
Ah! tu espreitas os vulcões que dormem!
Quando a cratera encher-se, à luz vermelha
Rebentarás nas praças!
Trarás contigo os raios da tormenta!
Da tormenta serás o sopro ardente!
Mas a tormenta passará de novo
E o golfo mexicano iluminado
Refletirá teu vulto gigantesco.
O’águia do porvir!
Teu nome está gravado nos desertos
Onde pés de mortal jamais pisaram!
Quando pudessem deslembrá-lo os homens,
As selvas despiriam-se de folhas,
Para arrojá-las do tufão nas asas
As multidões ingratas!
Como as de um livro imenso elas compõem
Teu poema sublime, a pluma eterna
Do invisível destino, e não rasteira,
Mísera pena de mundano bardo,
Nelas traçou as indeléveis cifras
De teu nome imortal!

Os pastores de Puebla e de Xalisco,
As morenas donzelas de Bergara
Cantam teus feitos junto ao lar tranqüilo
Nas noites perfumadas e risonhas
Da terra americana. Os viajantes,
Que os desertos percorrem, pensativos
Param no cimo das erguidas serras,
Medem com a vista o descampado imenso,
E murmuram fitando os horizontes
Vastos, perdidos num lençol de névoas:
Juarez! Juarez! em toda a parte
Teu espírito vaga!...

Falam de ti as fontes e as montanhas,
As ervinhas do campo e os passarinhos
Que, abrindo as asas no azulado céu,
Como um bando de sonhos esvoaçam.
Mas esse nome que ameniza o canto
Do torvo montanhês, e mais suave
Que um suspiro de amor, parte dos lábios
Da virgem sonhadora das campinas,
Faz tremer o tirano que repousa
Nos macios coxins do leito de ouro,
Como o brado do arcanjo no infinito
Ao fenecer dos mundos!

Deixa que as turbas de terror escravas
Junto de falso trono se ajoelhem!
Os brindes e os folguedos continuam...
Mas a mão invisível do destino
Na sala do banquete austera escreve
O aresto irrevogável!


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