Sunday, July 20, 2014

O milésimo lamento ou um efeito colateral de eu estar ficando velho

Crítico rabujento preparando-se para passar a faca,
ou Lord Byron fantasiado de albanês 
Depois de ler o milésimo lamento pela decadência da cultura dos tempos da literatura da arte da inteligência da poesia blá blá etc e tal, eu fico aqui pensando com os meus botões que pelo jeito tudo desce ladeira abaixo nesse mundo exceto o pedantismo, que podia pelo menos ser menos repetitivo: senão vejamos o que o venerável Lord Byron [aquele que achava que escrever para mulheres era ofensa] escreveu em seu diário nos anos 20 do século XIX:

“There are more poets (soi-disant) than ever there were, and proportionally less poetry.”

O mundo seria um lugar bem menos chato se essa legião de imitadores de Lord Byron tentasse escrever Don Juan ao invés de ficar repetindo essas bobagens. E digo mais: as pessoas que se lamentam sobre a decadência geral provavelmente [no caso do Brasil] dizem mais a respeito da sua rabujice do que a respeito dos nossos tempos. 

Fico, então, com as palavras de David Lehman em ensaio recente no jornal de resenhas do New York Times dedicado à poesia

"Obituaries for poetry are perishable. So are many poems that will slide into oblivion without needing a push. But the activity of writing them redeems itself even if it is only a gesture toward what we continue to need from literature and the humanities

Eu me permito interromper aqui abruptamente Lehman no meio da frase que continua explicando o que ele acha que as pessoas precisam quando se metem a ler/discutir essa tal literatura: 

"an experience of mind — mediated by memorable speech — that feeds and sustains the imagination and helps us make sense of our lives."

Não está mal isso aí, mas nem sei se é o caso de explicar assim ou assado a necessidade da literatura - suponho que no dia em que a vida de alguém fizer sentido a vida desse alguém está posta num papel. 

Termino dizendo que eu encontro muitas coisas interessantes para ler por aí. Mas elas não caem no meu colo nem no jornal de domingo muito menos na televisão. Há que procurar um pouco fora dos caminhos batidos para achar as coisas interessantes que andam por aí. E que não me preocupo em estabelecer comparações entre essas coisas interessantes para saber se elas são tão interessantes quanto as de Homero e Camões e Fernando Pessoa e sei lá mais quem que já morreu. A gente lê coisas escritas por gente viva com uma outra disposição de espírito. Caso contrário nem vale a pena; melhor ficar só com o que já está dissecado e classificado e emoldurado nas paredes dos museus.  

2 comments:

Norma de Souza Lopes said...

Cheguei tarde nessa história como produtora de poesia/prosa(seis ou sete anos) e não conhecia nenhum cânone para me apoiar em sua autoridade. Na maioria das vezes penso que deveria me ater aos papéis mais convencionais (certidões e obituários). Há dias que acordo com vontade de escrever, de aprender sobre escrever, há dias que eu desejo, como uma adicta, deixar o vício e há dias que eu paro mesmo (são dias de libertação. Não entendo nenhuma dessas pulsões, só sigo fazendo e acho que é o que a maioria está também faz. No mais, detesto cagador de regra, principalmente para poesia. Há público para tudo, quadra, soneto
(até alexandrino) , cordel, hap, visual, moderno, livre etc. É só achar a nossa turma de leitores.
Mas acho que estou enchendo sua caixa de comentários para dizer o que você mesmo diz. Abraços

Paulodaluzmoreira said...

Que é isso, Norma, fique à vontade para escrever o que quiser. É sempre bom a gente saber que não está falando completamente sozinho.