Sunday, July 06, 2014

Passado e presente, vida e arte no Grande Sertão: Veredas [parte 4]


Pois bem: “Seo Giovanni” foi condenado em 2012 a pagar R$6.000 por danos ambientais com o assoreamento do rio Abaeté [possivelmente para exercer a mais tradicional das atividades do estado, a mineração, eu diria] [http://www.otempo.com.br/cidades/feam-aponta-irregularidades-na-minera%C3%A7%C3%A3o-no-rio-abaet%C3%A9-1.327086]. Ele também foi condenado a um ano e dois meses de detenção mas, no dizer dajuíza do caso, “Seo Giovanni” é gente de bem e não merece isso:

Considerando que o crime não foi praticado mediante violência ou grave ameaça, tendo em conta a primariedade do réu, a culpabilidade da infração, os antecedentes imaculados, a conduta social favorável e sua personalidade, a qual, a princípio, não demonstra periculosidade, atentando-se ainda para a suficiência da medida diante dos motivos e circunstâncias, substituo a pena privativa de liberdade …

Nosso Seo Habão do século XXI não ficou de todo impune pelo assoreamento do rio Abaeté: ele tem que prestar por nove meses seis horas por semana de serviços voluntários à Associação de Proteção Animal e Ambiental de Patos de Minas e pagar à associação quatro salários mínimos em duas suaves prestações semestrais.

Mineração no rio Abaeté



Grande Sertão: Veredas não é feito de pura fantasia muito antes pelo contrário; está cheio de uma vitalidade particular que tem a ver com justamente com a presença vital da realidade de uma região para a qual ninguém havia dado muita bola até então, um canto perifério de um estado que foi dolorosamente saindo do centro da colonia para a periferia do Brasil do século XX. O romance de Guimarães Rosa não pertence a um passado perdido, principalmente num estado que se prepara aparentemente para escolher seu próximo governador entre um filho das famílias da Mata/Pimentel e um filho de um chefe de gabinete de Bias Fortes. Não podemos esquecer também que Guimarães Rosa criou um mundo literário no qual seo Habão e companhia não monopolizam o ponto de vista preferencial – antes pelo contrário são os escravizáveis/escravizados que têm a voz, aliás em grande parte da obra dele. O mundo a oeste do rio São Francisco mudou muito mas também continua muito como era no Grande Sertão: Veredas e a vida anônima dos que se gastam baixo a mão forte dos nossos Habões do século XXI são como o Abaeté do Riobaldo: “entristecedor audaz de belo”…

Ao perceber estar sob o olhar de um homem que pensa em escravizá-lo, Riobaldo joga no meio da conversa o nome do seu pai/padrasto Selorico Mendes, como que para deixar claro que ele Riobaldo não é qualquer um. Sobre o Seor Habão homem cuja sina era “reduzir tudo a conteúdo”, diz finalmente o antes de tudo orgulhoso Riobaldo:

“um desses, com a estirpe daquele seô Habão, tirassem dele, tomassem, de repente, tudo aquilo de que era dono – e ele havia de choramingar, que nem criancinha sem mãe, e tatear, toda a vida, feito ceguinho catando no chão o cajado, feito quem esquenta mãos por cima dum fogo fumacento. A misericórdia, também, eu quase tive. Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza.” 

4 comments:

André Tessaro Pelinser said...

Excelente sequência, Paulo! Essa dimensão humanizadora da literatura jamais pode ser esquecida. A literatura tem que ajudar a enxergar a realidade, e com reflexões como essa ela ajuda.
Se eu estivesse no facebobo, compartilharia com certeza. Mas por sorte me livrei daquilo.
Grande abraço!

Paulodaluzmoreira said...

Valeu, André. Bom saber que o blogue não está completamente relegado "às moscas"...
Qto ao famigerando fcbk [facebobo é ótimo!], eu mantenho o meu num nível sano porque só mantenho lá as pessoas que tem coisas interessantes para dizer e mostrar, fossem elas amigas "no mundo real" ou não. Gente anti-PT e cia limitada, parentes ou não, eu largava pra lá - não respondia, não reagia e se pegasse no meu pé, excluía.
Embora confesso que com a Copa do Mundo e uma multidão de gente tentando dizer coisas "puéticas" sobre futebol... está difícil.
Acho que eu me vacinei quando li um pedacinho de um texto "puético" sobre beisebol na NYr e percebi o ridículo que é achar que 22 sujeitos correndo atrás de uma bola é algo necessariamente "subrime" - principalmente quando isso se liga ao nosso nacionalismo rastaquera de sempre.
É uma pena porque no FCBK a gente podia conversar mais, mas não se acanhe de me escrever um email ou me procurar aqui, ok?

André Tessaro Pelinser said...

Também bloqueei um tanto de gente e excluí outro tanto, mas ainda assim me estressava. Certamente mais por incompetência minha do que qualquer outra coisa.
Realmente fazem falta alguns contatos, algumas trocas de ideias, por isso algum dia pretendo voltar. Mas não agora. Enquanto isso, há o moribundo e-mail. E o blogue, que, apesar do nome, eu sempre leio.

Sim, sim, quase me surpreendi ao descobrir, no dia seguinte à tal derrota, que o mundo continuava girando e que minha tese não havia ficado pronta sozinha. Onze contra onze, uns perdem, outros ganham, e a humanidade não melhora nem piora por isso.

Paulodaluzmoreira said...

É isso aí, André. Posso te fazer um convite? Você não gostaria de escrever aqui no blogue uma ou até duas vezes por semana? Liberdade total! O que vc acha?