Skip to main content

Como funciona uma fábrica de burrice


Como explicar que a internet e as redes sociais aumentem tanto nosso acesso direto a todo tipo de informação e funcionem, ao mesmo tempo, como mecanismos tão eficientes de produção de burrice? Um texto escrito muito antes dos computadores se tornarem parte da vida diária de qualquer um de nós tem coisas interessantes a dizer sobre esse paradoxo que precisamos entender com urgência.

Em Pensamento Selvagem Levi Strauss’s enxergava dois níveis funcionando simultaneamente e em estreita relação quando exercemos essa propriedade tão humana que é a narrativa - nenhum de nós passa um dia sequer sem exercê-la. Um era o nível micro, o ato de informar relatando diretamente eventos específicos, e o outro era o nível macro, o gesto de compreender um assunto qualquer, tentando explicá-lo de maneira coerente. Esses dois níveis da narrativa se relacionavam, para o antropólogo francês, de forma paradoxal: quanto mais informação factual empilhamos sobre um determinado assunto, menos compreensão conseguimos ter dele como um todo; quanto mais tentamos articular uma explicação generalizante que abarque aquele assunto como um todo, mais somos obrigados a excluir detalhes específicos do nosso campo de atenção, sacrificando o particular em nome da coerência que dá força argumentativa a um texto qualquer. Em outras palavras, quanto mais informação e atenção damos às percepções individuais, menos compreensão do todo; quando mais compreensão coerente da totalidade da experiência, menos atenção ao particular.

Vivemos hoje o império absoluto da informação, da pesquisa quantitativa, dos números gigantescos computados em gráficos e tabelas. Depositamos uma fé tremenda no poder descomunal que temos hoje de empilhar e organizar dados graças ao trabalho braçal dos computadores cada vez mais rápidos e eficientes. Felizes, pensamos que assim somos mais “científicos” que as gerações passadas e muitas vezes desprezamos a contribuição de antepassados que produziram um imenso cabedal de conhecimento [e ignorância] que poderíamos aproveitar. Exibimos orgulhosos nos meios de comunicação vários tipos de compreensões toscas sobre o mundo, compreensões que acreditamos ser mais verdadeiras e precisas, já que baseadas em amplérrimas coletas de dados. Tendo ao alcance dos dedos montanhas de dados cada vez mais complexos e detalhados, nos tornamos cada vez mais incapazes de atuar inteligentemente no mundo.

A colocação de Levi-Strauss é radical, e soa ofensiva aos empiricistas do século XXI. Todas as ciências [incluindo as sociais e as exatas] se constituem como domínios delineados arbitrariamente entre esses dois pólos: entre a compreensão mítica da totalidade da experiência e a confusão frenética das percepções únicas. A coerência, por exemplo, da históriografia ocidental é a mesma coerência do mito. Elas são escritas para um grupo e procuram responder aos anseios e ansiedades desse público específico.

Comments

Popular posts from this blog

Protestantes e evangélicos no Brasil

1.      O crescimento dos protestantes no Brasil é realmente impressionante, saindo de uma pequena minoria para quase um quarto da população em 30 anos: 1980: 6,6% 1991: 9% 2000: 15,4%, 26,2 milhões 2010: 22,2%, 42,3 milhões   Há mais evangélicos no Brasil do que nos Estados Unidos: são 22,37 milhões da população e mais ou menos a metade desses pertencem à mesma igreja.  Você sabe qual é? 2.      Costuma-se, por ignorância ou má vontade, a dar um destaque exagerado a Igreja Universal do Reino de Deus e ao seu líder, Edir Macedo. A IURD nunca representou mais que 15% dos evangélicos e menos de 10% dos protestantes como um todo. Além disso, a IURD diminuiu seu número de fiéis   nos últimos 10 anos de acordo com o censo do IBGE, ao contrário de outras denominações, que já eram bem maiores. 3.      Os jornalistas dos jornalões, acostumados com a rígida hierarquia inst...

Poema meu: Saudades da Aldeia desde New Haven

Todas as cartas de amor são Ridículas. Álvaro Campos O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia, mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia porque não corre minha aldeia. Poucos sabem para onde vai e donde vem o ribeirão da minha aldeia, 
 que pertence a menos gente 
 mas nem por isso é mais livre ou menos sujo. O ribeirão da minha aldeia 
 foi sepultado num túmulo de pedra para não ferir os olhos nem molhar os inventários da implacável boa gente da minha aldeia, mas, para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
 a memória é o que há para além do riberão da minha aldeia e é a fortuna daqueles que a sabem encontrar. Não penso em mais nada na miséria desse inverno gelado estou agora de novo em pé sobre o ribeirão da minha aldeia.

Diário do Império - Antenado com a minha casa [BH]

Acompanho a vida no Brasil antes de tudo pela internet, um "lugar" estranho em que a [para mim tenebrosa] classe m é dia brasileira reina soberana, quase absoluta, com seus complexos, suas mediocridades e sua agressividade... Um conhecido, daqueles que ao inv és de ter um blogue que a gente visita quando quer, prefere um papel mais ativo, mandando suas "id éias" para os outros por e-mail, me enviou o texto abaixo, que eu vou comentar o mais sucintamente possível: resolvi a partir de amanh ã fazer um esforço e tentar, al ém do blogue, onde expresso minhas "id éias" passivamente, tentar me comunicar diretamente com as pessoas por carta... OS ALUNOS DE UNIVERSIDADES PARTICULARES DERAM UMA RESPOSTA; E A BRIGA CONTINUOU ... 1 - PROVOCAÇÃO INICIAL Estudar na PUC:............... R$ 1.200,00 Estudar no PITÁGORAS:..........R$ 1.000,00 Estudar na NEWTON:.....R$ 900,00 Estudar na FUMEC:............ R$600,00 Estudar na UNI-BH:........... R$ 550,00 Estudar na...