"A melhor mãe do mundo", dirigido por Anna Muylaert, consegue ser melhor do que "Que horas ela volta?", mesmo sem aquele carisma gigante da Regina Casé como protagonista. O cuidado com a câmera e a fotografia linda sem ser decorativa/embelezante estão lá - São Paulo é reconhecível naquela beleza dura mas pulsante. E para melhorar tudo, o roteiro vem no ponto exato entre o laconismo de "Mãe Só Há Uma" e a afetividade transbordante de "Que horas ela volta?"
O filme é a história de Gal, uma mulher vivendo a maternidade na precariedade luta como uma leoa - me fez pensar no filme "Leonera" do Pablo Trapero - para sair de vez debaixo de um relacionamento ruim, violento e frustrante. As forças da reação parecem que vão emparedar a protagonista - chegando a tirar as rodas do carro de reciclagem. A prima que acolhe acaba pregando o conformismo com as agruras da vida com um homem que bebe demais e é infiel. Seu Jorge está excelente no papel de parceiro da protagonista, o centro vivo dessa força da reação - ele chega com flores, churrasco, pagode e pedido de casamento, mas não pede desculpas, se recusa a ver a bebida como problema e quem manter uma dinâmica sexual que Gal detesta.
A carroça de Gal é o rocinante dessa fusão de Dona Quixote e Sancha Panza, determinada a viver de qualquer jeito. A carroça vira transporte e berço protetor para os filhos pequenos, centro das atenções e fonte das alegrias da protagonista.
E aparecem na tela, pulsando de vida, duas faces do que há de mais inventivo e moderno no Brasil: o mundo dos catadores de recicláveis e o mundo das ocupações urbanas. Sobrevivência que é mais do que alguma comida e um lugar para dormir: é a chance de Gal viver em seus próprios termos.


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