Skip to main content

Cinema: O Agente Secreto


O filme O Agente Secreto acabou de chegar à OKC. Fomos ver na confortável e chique sala de cinema do Museu de Arte da cidade. Estou ainda profundamente impactado. Acho que estamos todos aqui em casa. Escrevo essas mal traçadas linhas só para registrar minhas primeiras impressões. Mesmo porque é fácil assistir O Agente Secreto várias vezes. Certamente o filme vai fazer parte da minha aula sobre Cinema Latino-Americano no segundo semestre. Assim, serei "forçado" a rever e estudar o filme com cuidade.

O filme segue o que é para mim a estética de Guimarães Rosa: amorosamente localista até a medula mais cruel e violenta e recheado de pequenas, grandes, óbvias e obscuras referências [no caso] ao Recife dos anos 70. Mais importante para mim, o filme se livra [de novo] daquele apego documentarista à "realidade" [sigo aqui o conselho de Nabokov e uso o termo com cautelosas aspas], para assim dizer verdades profundas sobre o Brasil durante a ditadura nos anos Geisel e agora.

Reconheço no arremedo de recepção crítica ao filme no Brasil semelhanças com a forma com que Bacurau foi recebido. Naquela ocasião o economista Samuel Pêssoa usou sua coluna na Folha de São Paulo para reclamar do filme de ficção científica e agora o excelente crítico cultural Jorge Coli, infelizmente não mais contribuindo com o mesmo jornal, mas felizmente disposto a escrever um "textão" na sua própria página do Feicebuque. Ambos criticam a falta de "realismo" dos dois filmes e se queixam de supostas "injustiças" contra a tal locomotiva do Brasil.  

Aliás os dois críticos se irritaram com personagens que, nos dois filmes, falam sobre preconceitos regionais que pretendem menoscabar [hoje estou gastando...] o nordeste por ser ele menos "europeu" que o sul/sudeste. Em Bacurau eram os motoqueiros fosforescentes que interrompem o sinal de internet na cidade para preparar o massacre/safari e em O Agente Secreto é o industrial que monta na Eletrobrás vir à Recife para advogar em causa própria e destruir a pesquisa do departamento onde o protagonista trabalha. 

Transporto esse tipo de abordagem peculiar para um filme como, por exemplo, O Poderoso Chefão de Coppola. Deveríamos assistir o filme e, pior, julgá-lo com base no que ele nos diz sobre a "realidade" da máfia italiana nos Estados Unidos? Avaliar o filme pelo "realismo" com que ele retrata as relações entre mafiosos, polícia, imprensa e sociedade americana em geral? Não faço essa transposição senão para mostrar o ridículo de exigir de um filme de ficção algum compromisso com a "realidade factual" do regime durante a presidência de Geisel ou a resistência ao regime àquela altura. 

Se formos falar sobre como O Agente Secreto fala sobre Recife, Pernambuco e o Brasil, temos que buscar instrumentos mais sutis que esse "documentarismo" meio tosco que contesta aspectos do filme que não condizem à realidade. Até porque, anos depois de Bacurau, saiu na imprensa notícia de um safari humano em Sarajevo nos anos 90. 

Posso aqui me ater a um aspecto do filme que se relaciona aos Ghirotti: o motivo pelo qual o protagonista é perseguido e tem que se esconder. Mais ou menos assim funcionavam precariamente os departamentos das universidades brasileiras naquele tempo: lutando uma luta desigual contra a rapinagem dos canalhas sempre prontos a rotular de comunistas ou hippies ou depravados os seus inimigos. De qualquer forma, os destestáveis Ghirotti [pai e filho] são obviamente vilões do filme. O filme precisa deles para nos mover e envolver na trama que propõe. Não vai ser o primeiro nem o último a valer-se dessas encarnações do mal [o tubarão, o menino da profecia] para eletrizar o público. Os Ghirotti funcionam bem como uma das faces principais da ditadura militar depois de mais de dez anos de funcionamento - os interesses privados que rapinavam e continuam rapinando o Brasil até hoje. Seus valores basilares: eurocentrismo, racismo e capitalismo colonialista. 

E mais além ainda, os Ghirotti não são os únicos paulistas do filme: não vamos nos esquecer de Elza, personagem de Maria Fernanda Cândido cujas fitas são um importante fio da memória, essa frágil teia que no filme se estende desde a mãe do protagonista até seu filho. E a menina pesquisadora que vai se encontrar com o filho do protagonista, vem de onde? 

E afinal de contas, para que tanto pudor com o preconceito regional brasileiro? Lembro-me de Milton Santos citando dois eminentes sociólogos paulistérrimos (Florestan Fernandes e Octavio Ianni) para dizer que no Brasil as pessoas eram racistas com a maior sem-cerimônia mas se incomodavam profundamente quando alguém resolvia nomear o que faziam como racismo. Acho que é igual com o preconceito regional - que se articula em cima de racismo e eurocentrismo e articula uma perspectiva neo-colonizadora. 

Não precisamos mais inventar uma perna cabeluda para poder falar dele.    



 

Comments

Popular posts from this blog

Protestantes e evangélicos no Brasil

1.      O crescimento dos protestantes no Brasil é realmente impressionante, saindo de uma pequena minoria para quase um quarto da população em 30 anos: 1980: 6,6% 1991: 9% 2000: 15,4%, 26,2 milhões 2010: 22,2%, 42,3 milhões   Há mais evangélicos no Brasil do que nos Estados Unidos: são 22,37 milhões da população e mais ou menos a metade desses pertencem à mesma igreja.  Você sabe qual é? 2.      Costuma-se, por ignorância ou má vontade, a dar um destaque exagerado a Igreja Universal do Reino de Deus e ao seu líder, Edir Macedo. A IURD nunca representou mais que 15% dos evangélicos e menos de 10% dos protestantes como um todo. Além disso, a IURD diminuiu seu número de fiéis   nos últimos 10 anos de acordo com o censo do IBGE, ao contrário de outras denominações, que já eram bem maiores. 3.      Os jornalistas dos jornalões, acostumados com a rígida hierarquia inst...

Poema meu: Saudades da Aldeia desde New Haven

Todas as cartas de amor são Ridículas. Álvaro Campos O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia, mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia porque não corre minha aldeia. Poucos sabem para onde vai e donde vem o ribeirão da minha aldeia, 
 que pertence a menos gente 
 mas nem por isso é mais livre ou menos sujo. O ribeirão da minha aldeia 
 foi sepultado num túmulo de pedra para não ferir os olhos nem molhar os inventários da implacável boa gente da minha aldeia, mas, para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
 a memória é o que há para além do riberão da minha aldeia e é a fortuna daqueles que a sabem encontrar. Não penso em mais nada na miséria desse inverno gelado estou agora de novo em pé sobre o ribeirão da minha aldeia.

Diário do Império - Antenado com a minha casa [BH]

Acompanho a vida no Brasil antes de tudo pela internet, um "lugar" estranho em que a [para mim tenebrosa] classe m é dia brasileira reina soberana, quase absoluta, com seus complexos, suas mediocridades e sua agressividade... Um conhecido, daqueles que ao inv és de ter um blogue que a gente visita quando quer, prefere um papel mais ativo, mandando suas "id éias" para os outros por e-mail, me enviou o texto abaixo, que eu vou comentar o mais sucintamente possível: resolvi a partir de amanh ã fazer um esforço e tentar, al ém do blogue, onde expresso minhas "id éias" passivamente, tentar me comunicar diretamente com as pessoas por carta... OS ALUNOS DE UNIVERSIDADES PARTICULARES DERAM UMA RESPOSTA; E A BRIGA CONTINUOU ... 1 - PROVOCAÇÃO INICIAL Estudar na PUC:............... R$ 1.200,00 Estudar no PITÁGORAS:..........R$ 1.000,00 Estudar na NEWTON:.....R$ 900,00 Estudar na FUMEC:............ R$600,00 Estudar na UNI-BH:........... R$ 550,00 Estudar na...