Monday, July 06, 2015

Victor Hugo em três idiomas

Conheço e aprecio bastante o romantismo inglês mas estou estudando o romantismo brasileiro, então preciso estudar mais o romantismo francês. Em 2004 li "Do Grotesco e do Sublime" de Victor Hugo na tradução de Cecília Berrettini e em 2011 li o texto de novo o texto no original em francês e numa tradução para o inglês [no caso porque meu livrinho da Editora Perspectiva, com minhas notinhas tão úteis, ficou no Brasil]. Agora pela primeira vez, promovi um encontro entre as três versões do texto. Aqui exponho cinco trechos e comento:

1. 
Não edificamos aqui sistema, porque Deus nos livre dos sistemas.
Nous ne bâtissons pas ici de système, parce que Dieu nous garde des systèmes.
We are constructing no system here—God protect us from systems! 

Acho que o travessão substituindo o "parce que" e o ponto exclamação fazem da frase em inglês uma construção mais expressiva que o original e o português, que se aproximam naturalmente até na dupla negativa. E me lembrei da análise estilística que Bakhtin propõe que se faça no estudo de certas estruturas gramaticais, em que um verso/frase de Pushkin tem uma estrutura com o mesmo tipo de laconismo sintético [li Bakhtin e Pushkin, claro, na tradução para o português, porque eu, em Russo, nem reconheço as letras do alfabeto - viva as traduções!]. 

2.
[A poesia] se porá a fazer como a natureza, a misturar nas suas criações, sem entretanto confundi-las, a sombra com a luz, o grotesco com o sublime, em outros termos, o corpo com a alma, o animal com o espírito, pois o ponto de partida da religião é sempre o ponto de partida da poesia. Tudo é profundamente coeso.

[La poésie] se mettra à faire comme la nature, à mêler dans ses créations, sans pourtant les confondre, l'ombre à la lumière, le grotesque au sublime, en d'autres termes, le corps à l'âme, la bête à l'esprit; car le point de départ de la religion est toujours le point de départ de la poésie. Tout se tient.

[Poetry] will set about doing as nature does, mingling in its creations—but without confounding them—darkness and light, the grotesque and the sublime; in other words, the body and the soul, the beast and the intellect; for the starting-point of religion is always the starting-point of poetry. All things are connected.  

Esse trecho um pouco mais longo é um dos meus preferidos do texto. Aqui reconheço um romantismo interessante e instigante, muito longe daquele romantismo que se estuda com uma certa condescendência como se a coisa toda se tratasse de um porra-louquismo meio inocente. Gosto dos travessões do inglês até mais que as vírgulas do original e no curto fecho/frase fico com o inglês mais que com o português porque esse "profundamente coeso" é uma floreadinha que eu costumo fazer quando traduzo mas que perde, não em sentido propriamente dito mas em termos de estilo, um pouco do delicioso laconismo do original em francês.

3.
"Do sublime ao ridículo há apenas um passo," dizia Napoleão...
"Du sublime au ridicule il n'y a qu'un pas," disait Napoléon... 
“It is but a step from the sublime to the ridiculous,” said Napoleon...

Fico com o inglês mais que o português porque o "it is but a step" me aproxima mais da graça do "il n'y a qu'un pas". Acho que ficaria dividido entre meio-inventar um “menos que um passo” ou fazer exatamente como está no texto que tenho em mãos.


4.
Dante n'aurait pas tant de grâce, s'il n'avait pas tant de force.
Dante não teria tanta graça se não tivesse tanta força. 
Dante would have less charm, if he had less power. 

Fico certamente com a tradução para o português, porque "force" é mas não é exatamente "power". Aliás o inglês, que tem "power" e "force" e "strength", e não precisava dessa semi-pixotada, mas aposto que vários tradutores iam com power porque "soa" mais inglês. 

5.
Avec toute sa poésie, Virgile n'est que la lune d'Homère.
Com toda a sua poesia, Virgílio é apenas a lua de Homero.
With all his poetry Virgil is no more than the moon of Homer.  

Nessa canelada que Victor Hugo dá em Virgílio, a concisão do francês simplesmente mata a pau...

6.
Digamo-lo pois ousadamente. Chegou o tempo disso, e seria estranho que nessa época, a liberdade, como a luz penetrasse por toda a parte, exceto no que há de mais nativamente livre no mundo, nas coisas do pensamento. Destruamos as teorias, as poéticas e os sistemas. Derrubemos este velho gesso que mascara a fachada da arte! Não há regras nem modelos; ou antes, não há outras regras senão as leis gerais da netureza que plainam sobre toda a arte, e as leis especiais que, para cada composição, resultam das condições de existência próprias para cada assunto.

Disons-le donc hardiment. Le temps en est venu, et il serait étrange qu'à cette époque, la liberté, comme la lumière, pénétrât partout, excepté dans ce qu'il y a de plus nativement libre au monde, les choses de la pensée. Mettons le marteau dans les théories, les poétiques et les systèmes. Jetons bas ce vieux plâtrage qui masque la façade de l'art! Il n'y a ni règles, ni modèles; ou plutôt il n'y a d'autres règles que les lois générales de la nature qui planent sur l'art tout entier, et les lois spéciales qui, pour chaque composition, résultent des conditions d'existence propres à chaque sujet.

Let us then speak boldly. The time for it has come, and it would be strange if, in this age, liberty, like the light, should penetrate everywhere except to the one place where freedom is most natural—the domain of thought. Let us take the hammer to theories and poetic systems. Let us throw down the old plastering that conceals the façade of art. There are neither rules nor models; or, rather, there are no other rules than the general laws of nature, which soar above the whole field of art, and the special rules which result from the conditions appropriate to the subject of each composition.

Como um contumaz opositor de todas as cagações de regra no que diz respeito, por exemplo, à poesia [o sujeito começa com “a poesia tem que” ou “todo o poeta devia” e eu já vejo que lá vem bobagem]. Então gosto muito desse trecho que se relaciona e expande o primeiro trecho que coloquei aqui. Acho uma pena que o martelo sumiu da tradução para o português, mas teria feito o mesmo provavelmente. Minha leitura aqui não é tanto a de avaliar uma tradução como mais ou menos adequada. Esse tipo de leitura, que acho geralmente muito pouco interessante, tem que supor que o leitor vai receber na versão traduzida algo completamente auto-suficiente. Aqui eu estou pondo lado a lado três versões de uma coisa e olhando para as três. Uma tradução em geral é feita para quem não pode ler o original [como é meu caso com Pushkin e Bakhtin, por exemplo]. 

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