Tuesday, July 28, 2015

Prosa Minha: A Cadeia da Felicidade

Desenho meu: Cadeia da Felicidade
Um dia passei um dia inteiro trancado num carro ouvindo a rádio CBN, aquele túmulo da língua portuguesa. Num lampejo de loucura, parei no acostamento e escrevi isso:

A Cadeia da Felicidade


Primeiro um breve resumo:
Ano passado Válter Disnêi criou e patenteou um aspirador de pó que podia também ser usado como secador de pentelhos ou ventilador-cortador de batatas. A fábrica de biscoitos e miúdos Guarani fechou então contrato para produzir em larguíssima escala em suas modernas linhas de montagem o aparato no formato transformer: forma de Elefante, Tamanduá ou pano de prato com um simples e rápido jogo de botões e alavancas móveis em cores e linhas de caráter leve e arrojado. A cadeia de lojas de departamento de massa Pancrácio assinou contrato de exclusividade para a distribuição do produto nas suas lojas no país e no exterior e anuciou o uso do revolucionário sistema de embalagem KRAN111: caixas sub-leves, de resina transparente colorida e comestível, importadas diretamente da Malásia, onde foram criadas pelo guru da logística holística, o multi-empresário e ultra-milionário Maputra Mon Chian, que fez fama e fortuna com o sistema e com o também revolucionário método de gerenciamento MaMonChi, que combina com imaginação e bom-senso fraudes tributárias, contrabando e a exploração intensiva da imensa fonte de força de trabalho infanto-juvenil em dias divididos em três partes iguais: oito horas na fábrica, oito horas no prostíbulo e oito horas cavando com as próprias mãos o novo túnel subaquático que vai conectar de forma ainda mais rápida e eficiente todas as economias intestinas da região, facilitando a troca de sapatos de crocodilo e bolsas de canguru australianos por fígados e rins humanos produzidos um a um na Indonésia para o abastecimento dos melhores hospitais e restaurantes dos melhores endereços da Europa e dos Estados Unidos.
            Agora a nossa notícia:
Válter Disnêi, a fábrica de biscoitos Guarani e a cadeia de lojas de departamento de massa Pancrácio foram comprados de uma só vez pelo conglomerado sino-germânico controlado pelo hermafrodita cubano-americano Harvey “Pocahontas” Díaz numa manobra radical que deixou Wall Street em discreta polvorosa por quase vinte minutos.
Assim, a partir de agora o nosso querido orgulho nacional Válter Disnêi passa a atender pelo nome de Rodney Ronaldson, a Guarani transformou-se em uma divisão do comglomerado Faktorie e as lojas da Pancrácio foram fagocitadas pela bandeira da marca Mon Congo Way.

O mercado reagiu muito bem às mudanças e os efeitos dessa alegre ebulição comercial, administrativa e financeira já se fazem sentir na cidade natal de Rodney Ronaldson, nossa pacata e aprazível Moctezuma, localizada aqui, nas amígdalas do Vale do Jequitinhonha: toda a cidade está também em turbulência ampla geral e irrestrita com a chegada dos novos executivos trazidos por Rodney para a Faktorie e a Mon Congo Way: todos jovens importados diretamente do Canadá com apoio na nova Lei de Incentivo ao Desenvolvimento Sustentado do Vale (LIDESUVA) – os novos líderes corporativos da cidade são movidos a bateria solar e prometem causar furor nos banhos públicos e bailes de debutantes da cidade, substituindo em boa hora os velhos e já ventrudos executivos Belgas movidos a uísque e charutos, que, se por um lado, já faziam parte do conjunto histórico do centro da cidade, por outro, já começavam a ameaçar a saúde financeira geral do município ao onerar cada vez mais os cofres públicos com custos de manutenção e peças, já que quase sempre começavam a soltar as tiras e dar cheiro depois dos cinco primeiros anos de uso intensivo em que funcionavam com garantia do fabricante.


Obs. Uma primeira versão desse texto apareceu na Revista Inimigo Rumor.


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