Saturday, July 25, 2015

Prosa Minha: Moctezuma Existe

Moctezuma existe
"Carro apertado é que canta"
dos Ditados Impopulares


            Moctezuma existe. Está no mapa; pode procurar. Fica no norte do estado, perto da Bahia. Parece que ninguém sabe disso nem em Belo Horizonte, que é um lugar que, eu garanto, também existe, ainda que muitos duvidem. Meu projeto pessoal, minha contribuição social, municipal, estadual, nacional, universal enfim, é convencer primeiro Belo Horizonte, depois o Brasil (metonímia de Rio de Janeiro e São Paulo, pelo menos para quem vive em São Paulo ou Rio de Janeiro) e finalmente o mundo inteiro, que Moctezuma existe.
            Mas, você deve se perguntar, por que? Lá nunca nasceu alguém importante, nunca houve ouro nem diamante, nenhuma grande batalha, nenhum bandido famoso, nenhum desastre terrível, nenhuma igreja barroca, nenhum metal radioativo, nada. Se eu dissesse que temos lindas termas e fontes de água mineral cristalina, eu sei o que você pensaria: “viajar 600 kilômetros de sertão mineiro prá tomar um banho e beber um copo d’água?”
            Nada disso. Moctezuma existe e o que temos para oferecer ao mundo é um modo de vida em que vigoram sempre a harmonia e a paz.
            Aqui, uma vez por ano, escolhemos a dedo um jovem saudável e belo para o que nossos antepassados chamavam de Auto das Flores. Hoje em dia alguns, mais modernos e ligados a costumes de fora, chamam o Auto das Flores de aniquilamento seletivo ou execução extra-judicial. O jovem saudável e belo que escolhemos vem sempre da mesma família, os Moreiras; porque os Moreiras são muitos e não fazem a menor falta nos outros 364 dias do ano. O crescimento da cidade já fez com que alguns propusessem que escolhêssemos mais de um Moreira por ano, mas o padre da cidade nos ofereceu um argumento irrefutável: na Missa uma hóstia, por mais fina e delicada, continua sagrada, e molhada, mesmo no vinho mais ralo, é corpo e sangue de Cristo.

            O coração humano, como o conhecemos, é uma carne fibrosa, mas doce. Não recomendo um assado inteiro porque a carne fica dura e não entranha bem o tempero, por mais forte que ele seja. Repito: por mais magnífica que seja a aparência do coração quando extraído de um corpo vivo ainda pulsante e, num breve instante de jorro e gozo, mais vivo que o corpo do qual o separamos, não se engane: assado inteiro, o tempero não entranha direito e a carne fica seca e dura.
Abro um rápido parêntesis: certamente o coração, em seus últimos estertores ou mesmo assado inteiro, é muito mais bonito que o miserável cérebro humano, essa carne amarga, babosa, arenosa, que apenas moemos e damos aos porcos. Neste parêntesis abro outro parêntesis, ainda mais sucinto, agora sobre os porcos: damos o cérebro ao porco, o porco come o cérebro e, no fim das contas, comemos o porco.
Sobre o coração, portanto, não se esqueça: assada inteira, a carne cordial fica dura e fibrosa. O coração de um Moreira limpa-se com faca de ponta; corta-se em filetes bem finos; refoga-se com alho, cebola e um par de folhas de louro; depois mais duas xícaras de água morna e então pelo menos trinta minutos na panela de pressão; finalmente acrescenta-se um bom molho de água e sal, fubá e ora-pro-nobis.
            E depois: a harmonia e a paz.

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