Tuesday, December 06, 2016

Diário de Pindorama: Odete Roitman, torcida organizada e o mar de lama

No Brasil somos todos profundamente formados por uma cultura de massa muito moralista e maniqueísta. Desde a infância recebemos regularmente todos doses cavalares de melodrama barato na televisão [onde o que separa as pessoas, sejam ricas ou pobres, é a completa "bondade" ou a completa "maldade" que elas têm no coração] e doses cavalares de rivalidade doentia no futebol [onde torcer contra o "inimigo" parece ser cada vez mais importante]. Não adianta não assistir televisão ou não ir ao estádio - somos cercados por parentes, amigos e colegas que articulam uma visão de mundo que se divide entre galãs cheios de boas intenções e canalhas traiçoeiros

Em grande medida por causa disso, acho que não existe debate político de verdade no Brasil. Desde o fim da ditadura - quando não havia disposição nem liberdade para nenhum tipo de debate - simplesmente nos acusamos uns aos outros de ruindade, desonestidade e venalidade. Atribuímos hipocritamente a nós mesmos o papel de injustiçados pelos políticos maldosos [como se eles não tivessem sido eleitos com o nosso voto] e ficamos por aí mesmo. Escolhemos nossos inimigos [Renan Calheiros, Michel Temer, Feliciano e Malafaia] e justificamos o combate com o argumento de que eles são "ladrões" ou "canalhas". As ideias e valores hipócritas e autoritários e as políticas públicas egoístas e míopes que eles defendem e representam nunca estão no centro dos debates - basta condenar as intenções corrompidas dos representantes do capeta. A falta de conteúdo a gente compensa como muita paixão. 
Finalmente a abolição

As falsas bandeiras, remendos de clichês de novela, entopem o horizonte: somos todos contra a corrupção, contra a morte, contra a maldade, contra a bandidagem. Intro ao Brasil: ler os debates no parlamento do império sobre a escravidão. NINGUEM no Brasil era a favor da escravidão por princípio. Só que aí aparece um que é contra MAS diz que é preciso pensar na economia, aparece outro que também é contra [é claro] MAS alerta que é preciso pensar no respeito à propriedade privada [pilar do estado de direito] e indenizar os senhores de escravo pelo "investimento" feito, o próximo diz que é contra a escravidão também MAS há que se pensar primeiro nos pobres escravos totalmente sem preparo para a vida em liberdade, depois vem mais um se dizendo contra a escravidão MAS alertando que é preciso planejar uma transição lenta, gradual e segura para que ninguém seja prejudicado injustamente.  Nossos inimigos são invisíveis: são a favor da corrupção, da impunidade, do abuso de autoridade, da maldade, da brutalidade e principalmente contra o amor verdadeiro e os bons sentimentos! Desde sempre, o que passa por debate político no Brasil é um monte de lugares comuns e é nas entrelinhas desses lugares comuns que a gente encontra um caroço duro onde ninguém pode encostar. Quando a gente chega mais ou menos perto: "acabou a festa, chamem os milicos, tragam o pau-de-arara..."

Nessa cultura escorregadia não existe espaço para um projeto político. O PT só chegou ao poder na esfera federal quando finalmente se derreteu no  "partido do Lula". Enquanto isso o PSDB se transformou de vez em mais um condomínio de "caciques". A esquerda e a direita, principalmente quando na oposição, limitam-se a acusar o outro lado de corrupção e desonestidade sem apontar outros motivos pelos quais deveríamos trocar de governo. Com o passar dos anos a dança das cadeiras no poder nos vez chegar a uma situação grotesca que parece não chamar a atenção de ninguém. Os que ontem eram pragmáticos conformistas apologistas da eficiência são os indignados inconformados de hoje e os indignados inconformados de ontem são os pragmáticos conformistas apologistas da eficiência de ontem. 

Odete Roitman e Roque Santeiro
Com essa pantomima melodramática como cortina de fumaça, as grandes questões simplesmente não são discutidas. O debate sobre a privatização, por exemplo, nunca aconteceu no Brasil - 95% do tempo a esquerda se limitava a denunciar a corrupção no processo em si, sem discutir com profundidade o porquê de uma privação, mesmo feita sem qualquer corrupção, ser ruim para a maioria das pessoas e para o país. Na melhor das hipóteses, requentamos debates embolorados entre "entreguistas" e "nacionalistas" [de esquerda] ou entre "nacionalistas" [de direita] e "comunistas" diretamente importados da máquina do tempo de 1960, além do velho moralismo UDN, com direito a "mares de lama" e "repúblicas sindicalistas". Foi assim aqui FHC ou Lula viram para a maioria de nós santo ou demônio dependendo do seu "time".

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