Thursday, August 13, 2009

Conto meu

Mais de um mês sem internet em casa (sem contar umas duas semanas sem casa). Resultado: esse sumiço do blogue. Segue então um conto em fragmentos inteiro de uma vez só (desculpa o tamanho do post):

Isidoro
O fruto retorna ao caroço,
Reiniciando o sumo das ruínas.
Fabrício Carpinejar

Estou sepultado aqui dentro desse peito de pedra. Roça a minha testa com as suas mãos frias o rio do passado e as suas memórias, manada de icebergs, passam boiando por cima das minhas pálpebras, agora também de pedra. A vida aqui em baixo é uma sequência interminável de repetições da relojoaria descomposta que é o meu passado, desde o paraíso visceral do feto até aqui: a boca do inferno.
...
- Vai custar, menino, a mó d’ocê chegar perto do pé do seu pai.
- Nem nunca pensei nisso. Já custa demais chegar no pé do que eu quero ser eu mesmo.
...
- Só não quero que ele fique me batendo toda a hora, que eu não sou cachorro de ninguém.
- Seu pai te bate pro seu bem, porque ele é bom e te ama e te quer bem.
- Nó! Se não gostasse então... matava a gente!
- Vocês dois meninos não sabem a sorte de ter o pai que têm.
- É, a gente não sabe mesmo a sorte de ter o pai que a gente tem, que não deixa a gente nem sair na rua, que não deixa a gente ir nem na casa dos outros e que não deixa a gente nem trazer ninguém aqui em casa. Que sorte ter um pai que só quer que a gente fique enfurnado na porcaria da igreja todo dia o dia todo, lendo a porcaria da bíblia o tempo todo e berrando sem parar com a mão pra cima feito bobo. Que sorte a nossa, mãe, ter que ir pra escola e depois ficar enfurnado aqui em casa o resto do dia, quietinho num canto feito um ratinho manso escondido. Que sorte, de vera. Não sei o que é que a gente fez pra merecer tanta sorte. Ó: se isso não for a pior vida do mundo, fica sendo a pior até uma pior aparecer!
- O menino tá certo, Verônica. A gente não pode nem peidar direito com o seu marido por perto!
- E você tá é aproveitando que ele não tá aqui agora pra ficar falando mal dele pelas costas na frente dos filhos dele, e isso é muito feio.
- E daí? Faz mal nenhum seus filhos ficarem sabendo o que é que a tia deles pensa – e nem tem precisão, que eles já conhecem o pai que têm muito melhor que eu, coitados. Sujeitinho azedo, Verônica! Sujeitinho triste de ruim e azedo. Parece que porque o mundo veio e estapeou a cara dele dos dois lados sem ele pedir, ele agora quer descontar no qualquer um que aparece na reta dele, e principalmente nos meninos dele.
- O Cedro já sofreu muito na vida.
- Ah, mas coitado-coitadinho do seu Senhor Cedro Horta, sofredor-mor do mundo! Se ele fosse mulher – aí, sim, ele ia ver o que era bom pra tosse. A gente só leva ferro: se ferra casada e se ferra solteira; se ferra se faz e se ferra se não faz; se faz de menos, se ferra, e se faz demais, se ferra de novo. E não é por causa disso que a gente anda por aí xingando e batendo nos outros por qualquer bobagem que acontece. E tem mais: tem quem tome tranco tão mais feio da vida que não dá conta e não levanta é mais nunca, e nem por isso resolve fazer da vida do outro o inferno.
- Ai, mas cê não devia falar desse jeito na frente deles, mas de jeito nenhum, Flausina!
- O seu problema eu bem sei qual é, Dona Verônica Horta: você gasta o seu salamargo quase todo na lida e o restinho que sobra chorando sozinha pelo canto da casa. Mas com o traste do marido que infelizmente arrumaram pra você, carecia gastar pelo menos uma boa metade dele botando aquelezinho bem no eixo merecido dele.
...
- Vai custar pra gente chegar lá, né, tio?
- Chegar sempre custa, menino, seja onde for.
...
3 meses por ano os meninos e a mãe passam ali, na roça da avó. Toda a noite os 2 meninos sentados no tapete, num canto perto do fogão de lenha aceso; a mãe, as tias, a avó e outras mulheres da vizinhança também em volta do calor do fogo, tricotando, cozendo, remendando. As histórias que as mulheres contam em surdina enquanto as agulhas vão clicando baixinho são mais ou menos como as contadas pelos homens em volta de uma fogueira qualquer lá fora: histórias duras, cheias de violência, doença e morte; histórias que não explicam, simplesmente constatam o amargor do destino de viver na dependência absoluta de sol e chuva e calor e frio e preço de semente e cotação de safra que oscilam de um dia para o outro sempre fora de qualquer controle. Mas as histórias das mulheres são as que metem medo nos meninos: histórias sobre gente que os meninos não conhecem, gente estranha, familiar mas ao mesmo tempo diferente, errantes, encurralados em si mesmos, indo e vindo na boca do inferno. O prólogo é sempre igual, um aviso para os 2 meninos se prepararem, fingindo não estar ouvindo nada, chupando nervosos cada um o seu punhadinho de açúcar embrulhado num pedacinho de trapo limpo:
- É como diz o salmo: é sempre só lá na frente é que a gente entende o que vem vindo desde sempre na reta torta da vida da gente.
- Lá de cima deve ficar tudo muito claro, mas aqui embaixo nesse mero inferno de meu Deus, todo o caminho é mistério.
- É.
- E a gente tem mais é que aceitar o que vier, bom ou mau.
- Bom ou mau, a gente não tem escolha.
- A gente vive comendo pela beirada o tempo que se come pela entranha.
- Amanhã cedinho faz uma semana que me contaram uma história que Deus me livre e guarde.
Pausa. Ninguém pergunta nada – todos sabem que vai começar a história. Em cima do tapete no canto quente perto do fogão de lenha aceso só se ouve o chup-chup-chup dos dois meninos apertando um pouco mais a respiração e o trapo doce entre os dentes. Lá vem...
“E o homem, coitado, que trabalhava a noite toda e voltava pra casa cansado na conta de chegar e cair duro na cama de roupa e tudo e dormir sem café nem janta e ficar dormindo assim quieto quase que nem morto até bem de tardinha, chegou em casa aquele dia bem mais cedo que o costume. Pois naquele dia justo parece até que alguém piou no ouvido do homem que ele havera de voltar mais cedo pra casa, que ele não ia dar conta de trabalho mais e então ele chegou em casa assim bem cedinho ainda meio-escuro, ele já quase sem dar conta de ficar acordado já. E lá da rua mesmo é que ele meio-que-viu um homem que ele não viu que era mas que era o mero irmão dele, saindo da casa dele de braço redado com a mulher dele. E então ele claro desconfiou e apertou o passo e foi chegando mais perto e o irmão dele no meio-escuro diz-que parece-que não viu quem era e tirou pra fora da cintura o revólver que ele usava no serviço dele e apontou pro coitado que vinha. E o homem cansado coitado diz-que parece-que não viu nem quem era no escuro nem que a arma estava na mira dele e se viu a arma não disse nem fez nada e seguiu apertando o passo reto pra frente. E aí o irmão dele deu um, deu dois, deu três tiros assim bem nele. E foi o filho menor dele e da mulher, coitado, que viu que era o pai dele e o pobre do menino gritou e a mulher desesperada desandou a chorar e o irmão viu e então largou a arma no chão e saiu correndo sem rumo.
Correu e correu e correu apostando corrida com ele mesmo sozinho, o irmão do homem. E acabou dentro de um bar acabado de abrir na primeira luz do dia e lá só tinha um menino varrendo o chão sozinho. E o menino assustado largou a vassoura e correu prum cantinho, mortinho de medo, coitado também. Agora nem furioso, nem desesperado mais; agora, só triste, o irmão do homem. Quando o menino tomou coragem e olhou a faca que já estava lá, toda enterrada bem ali na mera boca do estômago do irmão homem, toda até o cabo. Diz-que pra ele nem parecia mais que doía, que agora a faca enfiada era feito um tipo de remédio calmante do nervo dele. Ele se vira então pro menino encolhidinho no cantinho coitado e fala meio-que-pergunta meio-que-pede meio-sem-ver o menino já – ‘qu’é de o menino? vem cá, menino, vem?’ – e o menino encolhidinho no seu cantinho ainda sem coragem de nada e o irmão do homem de novo – ‘vem cá, menino, pode vir, menino’ – e o menino aí toma coragem e dá um passo e o homem olha o olho já embaçado no olho do menino e diz – ‘preocupa não, viu, menino? Essa faca aqui, ó: não dói mais não. Vai acabar. Daqui pronde for não há de ser pior. Nessa vida que a gente não pode ter o que quer, a gente então tem que querer o que da conta de ter.’ E o irmão Caim coitado caiu morto no chão ali na frente do menino coitadinho.”
...
Domingo, dia de medo, o pai perambula pela casa o dia inteiro. O tom de voz sutilmente rouco da mãe reavisa o que já não pode mais ser dito em palavras – cuidado. À mesa o sal passa de uma mão à outra em silêncio. Os olhos da mãe, sempre trêmulos, fracos e gentis, evitam os olhares tímidos dos dois filhos. Não há saída além de agüentar a pressão, resistir manobrando calado num espaço cada vez mais exíguo, sem poder trombar em nada, nunca.
O pai perambula e a sombra do pai perambula atrás pela casa toda o domingo inteiro.
De repente a mão aberta vem e acerta o rosto do menino mais novo em cheio. A vista se estilhaça em fragmentos de luz que se condensam no seu cérebro enquanto ele cai da cadeira no chão. A mesma mão antes aberta agora agarra com força um cabide de arame. Numa fração de segundo, antes que o cabide desça com força sobre a carne do seu ombro, o menino em pânico cruza os olhos do pai e o todo o ódio impessoal acumulado em anos de frustração de um homem que vive uma vida de decepções e silêncio se desvela para o filho de repente, num golpe talvez mais forte e doloroso.
...
“A dor chega onde as palavras não vão. Eu já estive lá.”
...
Naquele dia eu apanhei do meu pai demais choveu muito depois que a chuva arrefeceu eu saí de casa e me sentei na beira da calçada e fiquei escutando o barulhinho descontente da água que corria o canto da rua levando de tudo papel velho saco plástico fósforo queimado guimba de cigarro saliva bosta de cachorro e sabe-se lá o que mais descia com a água da chuva ali na rua também as minhas últimas lágrimas de menino correndo até a esquina onde a boca de lobo parecia dar conta de engolir aquilo tudo indiferente.
...
Assiste a mãe chorando em silêncio e começa a envelhecer.
...
- Ô, mãe, eu queria...
- Queria nada, menino. Você caga na mão direita e fica querendo na mão esquerda e vê qual das duas enche primeiro, viu-se?
...
Debaixo da terra, finalmente livre, finalmente poroso: casca e miolo metamorfoseados numa nova existência, múltipla e gloriosa: uma multidão anônima, silenciosa e indiferente de flores microscópicas, fungos coloridos, vermes e gases fosforescentes que transitam dentro e fora de um dentro e fora que já não existem mais. A consciência adormece e sonha.
...
Uma aura quase cheiro de desastre: dois olhos duros, amarelos, de gato, olhando o desejo inato de esconder pelo menos uma beirinha da verdade embaixo da manga do sapato, estudando, sóbrios especuladores, com a atenção indiferente dos bebês, muito além desse sonoro peido humano, que hoje em dia atende pelo nome de audácia.
...
O cheiro que solta um figo tirado do pé quando a gente abre a fruta madura com a mão. Ensinar o corpo, da pele à medula dos ossos, na cama: o olho que morde, a testa dele suada encostada na testa dela, as quatro pernas trancadas. Aqui nesse longo minuto nada mais importa.
...
Amor assim não morre; ele vai é embora, e aí quem morre é você, fulminado, carcomido, cego, e pior: sem nem saber que. Baixei as malas no chão e tranquei a porta do quarto brigando com as chaves e quando eu me virei lá estava ela, nua, descalça, nem vergonha, nem modéstia: a fome.
...
“Coragem não existe sem descrer da boa sorte.”
...
Minha força agora é filha da imobilidade. Debaixo do pó que vai se acumulando em cima de mim, de mim, nasce da minha pele, do meu corpo que de si mesmo se desata. Meu tempo se come por dentro se come pelas entranhas dentro desse peito de pedra.
...

2 comments:

MARIA FERNANDA MARQUES said...

Olá! vc ficou um mês sem internet em casa e eu mais de um mês sem escrever... é bom quando as coisas voltam ao normal.

sabina anzuategui said...

também estou com dificuldades p/ acompanhar blogs. deve ser algo cósmico.