Saturday, June 06, 2020

Sonhadores reconhecem sonhadores

         Certa vez conheci um Vinícius de Moraes. Ele era só um pouco mais alto que eu, tinha os cabelos muito curtos, castanhos claros, em cachos pequenos bem colados na cabeça. E olhos miúdos, cor de mel. Nós topamos um com o outro diante da porta. Ele quase sorriu tímido quando tocou o interfone. Passou um tempo que não medimos, mas ninguém lá dentro atendeu. Vinícius de Moraes apertou de novo o botão. Eu e ele em silêncio ansiávamos por uma resposta e ela não vinha. Então, eu ficava agitada me perguntando se seria mesmo ali. A placa dizia que sim, afinal, nela estava escrito Hostel Cidade Maravilhosa e era aquela a rua da Glória. Não  havia perigo de engano, é verdade. Acontece que eu sou de dúvidas e de sempre me perguntar e conferir. E era por isso que eu conferia endereço no papel amassado quando alguém abriu e saiu e,... Voltou meio corpo pra dentro e gritou: - Fulano, eles chegaram! Depois - era uma jovem bem jovem com traços orientais, sorrindo displicente como se faz em qualquer lugar aos clientes -, escancarando a madeira azul apontou para dentro e nos disse: - pode entrar, gente! Nós entramos.
         Por dentro, a porta que se fechava nas nossas costas era verde e a jovem oriental tinha ido embora. Estávamos no início de um pequeno corredor de paredes azuis, eu e Vinícius de Moraes, lado a lado. Havia um balcão ovalado onde o Fulano se meteu e nos entregou, a cada um, um retângulo em papel-cartão e uma caneta Bic. Naturalmente, eu e Vinícius de Moraes começávamos a responder por escrito as perguntas que o papel-cartão nos fazia e... Fulano explicava que estava almoçando e que era por isso que tinha demorado a nos atender. Pedia desculpas, estava mastigando ainda e era magrelo, muito alto e moreno o Fulano. Bem. Eu sou hipermetrope, e foi graças a isso que descobri que estava na Cidade Maravilhosa com Vinícius de Moraes: usando meus superpoderes de águia bisbilhoteira para ler o nome que ele escreveu no papel enquanto Fulano falava. Acabamos. Entregamos ao Fulano nossos dados rabiscados. Minha letra é um tanto ilegível - é porque sou difícil de decifrar - e o Fulano queria confirmar se meu estado de origem era mesmo Minas Gerais. Eu respondia que sim e Vinícius de Moraes finalmente sorriu sem receio, dizendo: - Eu também!

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