Friday, January 20, 2012

Ainda Lima Duarte, ainda Guimarães Rosa

E para completar o ciclo "descobrindo Lima Duarte", um pedaço da entrevista no Roda Viva, na qual ele fala, na minha opinião, com muita propriedade sobre a adaptação do Grande Sertão: Veredas para a televisão.

Jorge Escosteguy:
Agora, você não gostou, por exemplo, da versão que se fez na televisão do Grande sertão: veredas. [Em 1985, o livro foi adaptado em uma minissérie escrita por Walter Durst (1922-1997) e dirigida por Walter Avancini, protagonizada pelos atores Tony Ramos e Bruna Lombardi].


Lima Duarte: Ai, caramba! Estão me entregando...

Jorge Escosteguy: Que foi até, surpreendentemente, um sucesso.

Lima Duarte: Foi, sem dúvida. Eu não gostei, discuti isso com Walter Avancini, exaustivamente. Brigamos, até discutimos mesmo, porque eu tenho posições muito firmes a respeito do Grande sertão: veredas, é uma visão muito pessoal e muito própria. Também sei que cada um faz a sua leitura, como ocorre com grandes livros. Essa que está lá, na Sala São Luiz, é a minha leitura. São os trechos que eu acho mais importantes que eu ressalto e coloco, calçado por cançõezinhas que eu me lembro lá de Minas Gerais. Minha mãe era atriz de circo, ela fazia a peça e depois fazia um negócio chamado ato variado, onde ela cantava umas cançõezinhas...Na questão do Grande sertão: veredas que fizeram na televisão, de fato, não concordei com o espetáculo do Avancini. Se não for muito fastidioso, eu te explico aqui o porquê. Porque o Guimarães escreveu um livro que é, na minha opinião, sobretudo, uma história de amor, um livro sobre o amor. E, muito mais que uma história de amor, são dois jagunços, dois terríveis jagunços, muito eficientes, dois guerreiros com os dentes apontados, com unhas grandes, para ser todo o corpo uma coisa de guerra mesmo. Perdem-se as armas, eles dão dentadas. Então esse dois guerreiros machos...De repente, o Riobaldo, ou Tatarana ou Urutu-Branco começa: "Mas o que está acontecendo comigo que eu quero botar a minha mão onde ele botou a mão dele?". Eis o amor e denunciando em um olhar, em uma curva da estrada, em uma folha caindo, no sertão, na selvageria, na brutalidade, o amor que vem nascendo e se sobrepondo, até conquistar completamente os dois. Tanto que Riobaldo diz: "Era o amor mal disfarçado em amizade: é o amor!" E vende a alma ao demônio para se livrar desse amor. É uma metáfora muito bonita: vender a alma ao ódio para se livrar do amor. Pois muito bem. No fim, ele descobre que é mulher, mas só no fim, depois do amor ter vencido completamente. Então, o que eu não concordei - e disse ao Avancini - é que ele colocasse a Bruna Lombardi - nada contra a Bruna, é uma atriz que tem lá o seu espaço, faz lá o que ela quiser - mas é mulher entre as mulheres. A Bruna é mulher, a primeira cena em que ela aparecesse, todos os espectadores saberiam disso. É uma mulher vestida de jagunço. E aparece o outro jagunço, só estão esperando chegar ao fim da história para ele transar ela, mesmo porque o jagunço com aqueles olhos, todo o bando se apaixonaria também por ele. Isso invalida, na minha opinião, um elemento poderosíssimo do livro, que é a vitória do amor, onde ele não podia vencer.

Jorge Escosteguy: Você não acha que, apesar de todos esses problemas, o fato de a televisão veicular uma obra como o Grande sertão: veredas, que é tão difícil e vende pouco, é meio caminho andado para, não digo popularizar, mas dizer Guimarães Rosa?

Lima Duarte: É um caminho inteiro andado, é uma coisa maravilhosa. Nós estamos discutindo e falando isso em um nível bem...não é? É evidente que o Guimarães Rosa, aliás, o grande serviço que ele presta à maioria dos novelistas...todas as novelas de região têm o Guimarães Rosa. Eu acho que foi um trabalho maravilhoso, foi um espetáculo maravilhoso. Minha posição é conceitual, a interpretação do Avancini é que eu não concordo. Aliás, a adaptação, que é do Walter Durst, uma pessoa maravilhosa, um grande profissional, foi lindíssima. E ele também não gostou muito da escolha.

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