Monday, January 23, 2012

Bem vindos ao deserto do global...


Dois trechos de entrevista para O Globo dada por Luciana Villas-Boas, cuja saída da Record é um importante sinal da internacionalização do mercado editorial brasileiro:


"Já constatei também que há grande interesse no exterior pelo que vier a sair do Brasil, desde que passemos a oferecer uma ficção de qualidade, mas legível por vários níveis de público, e não apenas a literatura chamada transgressora, ou metalinguística, que seja só experimentação formal — sem história, sem personagens ricos e complexos, sem carne, sem sangue. Isso, que já fizemos, enterrou e cria ainda obstáculos para a entrada do livro brasileiro no mercado internacional."

“Os grandes grupos editoriais estrangeiros estão enlouquecidos com a perspectiva de entrar num mercado com o potencial de expansão como o nosso. Um dos raros países que estão crescendo, uma nova classe média se formando, a consciência da necessidade da leitura se alastrando, os dirigentes finalmente entendendo que não dá mais para postergar a questão da educação no Brasil, sob o risco de comprometer todo o projeto de desenvolvimento. A entrada desses grupos pode ser muito positiva para profissionalizar o setor, estimulando a concorrência entre os editores. Há um mercado lá fora que recebe notícias positivas sobre o Brasil e tem o sentimento de que não nos conhece. Se oferecermos uma ficção que dê uma visão da nossa história, da nossa psique, como faz por exemplo a obra do Edney Silvestre, vamos arrebentar no mercado externo.”

Junte a ênfase no enredo e em personagens literários com “carne e sangue” [o uso do termo já diz muito mas não vale nem a pena] e a ausência de transgressão ou encheção de metalingüística e temos o quê? Em outras palavras, se um Guimarães Rosa do século XXI escrevesse um Grande Sertão: Veredas do século XXI teria que bater à porta de uma editora procurando uma versão light do romance do século XIX.

Mas não é só isso.

Também precisamos de oferecer aos gringos sedentos “uma visão da nossa história, da nossa psique”. Em outras palavras, para melhor se vender, nada melhor do ser… nacionalistas, à moda Getúlio, suponho.

Acrescente-se a isso que Luciana Villas-Boas pretende pagar as contas mesmo vendendo traduções para o “suculento” mercado brasileiro. Nada de muito transgressor ou metalingüístico, imagino, e oferecendo à nova classe média um retrato da “história e da psique” de algum país estrangeiro? Bom, digamos que os autores do primeiro mundo têm outras funções, menos especializadas…





7 comments:

sabina anzuategui said...

Mas acho ótimo ela dizer isso, porque é exatamente a experiência que tive com editoras grandes.

Melhor dizer de cara, né?
Em vez de manter a pose de que apoia a "grande literatura".

Paulodaluzmoreira said...

Claro, Sabina, é nessas horas que a gente pega as pessoas de guarda baixa e entende o que elas realmente querem. Mesmo porque no Brasil, poe exemplo, ninguém era a favor da escravidão na época da abolição. Se vc põe uma pessoa dessas na defensiva, ela solta aqueles lugares comuns e se diz defensora da literatura blablabla. Só que é engraçado ver os caras todos entusiasmados imitando um sistema que está falido aqui. O middle-brow faliu faz tempo nos EUA, junto com as mega-livrarias as mega-editoras estão todas se ferrando.

sabina said...

Ah,é? Eu não sabia.

Por causa de internet e etc, ou um motivo mais cultural?

Paulodaluzmoreira said...

Olha, Sabina, eu acho que as editoras foram, como se diz em linguagem de negócios, "se consolidando" [quer dizer, ficando maiores e mais pesadas] e ao mesmo tempo esperando lucros cada vez maiores e cada vez mais impossíveis. Isso porque acontece que o público leitor de papel decresce ano a ano e livrarias já quase não há porque tudo é comprado e vendido online por aqui. Os jornais todos dão prejuízo e as editoras "sérias" dão mais prejuízo ainda dentro desse modelo "mega". Principalmente comparando-se com uma "marca" poderosa como Nora Roberts, que vende um livro a cada vinte e seis minutos e ganha 60 milhões de dólares por ano. Do ponto de vista estritamente financeiro é melhor ir vender Nora Roberts do que ficar fingindo fazer literatura séria por dinheiro, entende? Os caras "se expandem" e aí tentam agradar a gregos e troianos mas acabam sem agradar a ninguém. O público "sério" [cada vez menor] acha banal e o público de massa quer Nora Roberts.

sabina anzuategui said...

Ah, tá. Parece ter sido o caso da Record, versus Sextante e Intrinseca.

Disso resulta então que o mercado de literatura hoje é o mesmo do que nos anos 50?

Uma editora de qualidade hoje pode ter o mesmo tamanho do que tinha meio século atrás.

José Roberto said...

Digamos que o Brasil está surgindo, mais uma vez atrasado, no ramo literário. Não entrando no mérito da qualidade dos livros vendidos, o mercado literário Brasileiro está crescendo. O Brasil está lendo muito mais e a tendência é aumentar muito nos próximos anos. Bem, este é o ponto comercial que está movendo as editoras no Brasil. As grandes comprando as pequenas e as multinacionais comprando as grandes; como em qualquer negócio no mundo.
Ainda assim, no Brasil aparecem pequenas editoras, algumas vezes dedicadas a apenas um tipo de literatura, que sobrevivem do boca a boca, das mídias sociais e de estratégias de vendas e distribuição bem particulares.
Todo este movimento no mercado editorial brasileiro já ocorreu em tempos passados nos EUA, a grande diferença é que aqui o crescimento literário está surgindo juntamente com a internet e os livros digitais. O que vem a seguir?
Tudo o que foi falado na entrevista me parece conversa para boi dormir. O que ela realmente quer e ganhar dinheiro com o crescimento do nosso mercado; o resto é balela.

Paulodaluzmoreira said...

Concordo, José Roberto. Acho que quem se preocupa com outras coisa que não o bolso dos donos de editoras teria por exemplo que se preocupar com a "biodiversidade" do nosso mercado editorial. Um amigo mexicano que conhece o mercado deles muito bem ficou muito impressionado com a quantidade de editoras pequenas e médias no Brasil. Isso porque, por exemplo, no ápice da crise argentina, depois de anos de "consolidações", os argentinos tinham que importar da Espanha os romances novos de todos os seus melhores escritores. E no México os escritores sabem que tem que ir à Espanha com um pires na mão tentar convencer os "guachupines" que o que eles escrevem tem interesse além das fronteiras do México.