Wednesday, March 28, 2012

Recordar é viver: poema de Francisco Alvim

AQUELA TARDE


Disseram-me que ele morrera na véspera.

Fora preso, torturado. Morrera no Hospital do Exército. O enterro seria naquela tarde.

(um padre escolheu um lugar de tribuno.

Parecia que ia falar. Não falou.

A mãe e a irmã choravam.)


Passatempo, 1974

7 comments:

Anonymous said...

Minha mãe descreve situações parecidas vividas na adolescência dela. Pessoas conhecidas na cidade que simplesmente sumiam e do dia do sumiço em diante não se pronunciava mais seus nomes. Meu trabalho de conclusão de curso (na História) começou com um outro assunto e acabou descambando pra acontecimentos desse tipo. Eu estava usando a metodologia da história oral e nos relatos que eu colhia muito mais me interessavam os silêncios.
Não fui muito apoiada pela instituição na qual eu estudava e tive que voltar à ideia original. Mas ficou a vontade de continuar investigando os silêncios um dia. Quem sabe.
Beijos,
Tata.

Paulodaluzmoreira said...

Olha, Tata, a idéia é muito de observar os silêncios [e as lacunas] é bem interessante, se eu entendi o que vc propôs direito. Tenho a sensação de que falta isso, por exemplo, na análise dos filmes brasileiros sobre a ditadura. Concentram-se demais nas coisas que o filme incluiu mas tem um mundo de significado nas coisas que o filme escolheu não incluir.

Anonymous said...

A ideia era me concentrar nos 'não ditos' dos relatos sobre a época escolhida. A pessoa não citada, o caso contado pelo ressentido da turma que não constava nas falas dos outros, o político não citado, o benfeitor não mencionado, etc. E daí adentrar nos discursos emitidos de dentro do recorte temporal. Os locais (numa perspectiva micro) que eu tentava encontrar nos jornais antigos da minha cidade e os nacionais (os do livro de história). O problema era que, no caso do meu objeto de estudo, os 'não ditos' convergiam para um ponto escuro que não convinha clarear.
Tata.

Paulodaluzmoreira said...

Excelente ideia. Pq nao gostaram?

Anonymous said...

O ponto escuro que não convinha clarear era uma certa quantia vinda de Brasília, durante o ano de 1968, para ser dividida entre a instituição na qual eu estudava, meu objeto de estudo (um movimento estudantil de cidade pequena que se dizia de esquerda mas tinha ligações institucionais com a Arena)e um clube de futebol de várzea. Botei a mão em vespeiro na maior inocência. Como todo mundo hoje em dia nega um dia ter apoiado o governo ditador, quase que nem formo. rs...
Tata Marques (do ex-extras e ordinárias)

Paulodaluzmoreira said...

Tristemente típico, Tata. Quem sabe vc desenvolve este projeto de outro lugar?

Anonymous said...

Quem sabe.