Sunday, July 07, 2013

Poesia Minha: Saudades

Imagem do Ribeirão da Serra perto da minha casa em Belo Horizonte, antes de ser engolido pelo Asfalto. Fonte: Grupo Projeto Mangabeiras

-->
Saudades da Aldeia desde New Haven

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

            Álvaro Campos


O Tietê é mais sujo
que o ribeirão que corre minha aldeia,
mas o Tietê não é
mais sujo que o ribeirão
que corre minha aldeia
porque não corre minha aldeia.
Poucos sabem pronde vai
e donde vem ele,
o ribeirão da minha aldeia, 
   
que pertence a menos gente  
   
mas nem por isso é menos sujo.

O ribeirão da minha aldeia 
   
está sepultado
debaixo do asfalto
para não ferir os olhos
e o direito de ir e vir
nem molhar os inventários
da implacável boa gente
da minha aldeia.

Mas não adianta
demolir e sepultar
as quatro favelas
da minha aldeia:
os fantasmas me apontam
tudo o que já não está.

A família de Dona Ana
onde assenta o sopé
da margem esquerda 
do bairro Mangabeiras.

Os retalhos do Pindura-a-Saia 
   
debaixo do asfalto da Afonso Pena,
do Ginástico, da FUMEC,
do Mercado do Cruzeiro,
da CEMIG e do IAB.

O Apartheid-Hotel de nome inglês
que brotou do velho
asilo Santa Isabel.

E as sombras tenebrosas
da Copacabana,
abafadas por aquele
famoso clube da cidade
onde só entra preto pela porta de serviço.

A memória é o que há para além
do ribeirão da minha aldeia
e brota da injustiça
que o cimento pretende apagar.
A lembrança é a fortuna
daqueles que a sabem encontrar. 


Na miséria desse inverno gelado,
trancado no meu trabalho,
não penso em mais nada:
estou agora, de novo,
em pé, nas pedras da bica
do ribeirão da minha aldeia.

2 comments:

Tudo de Novo Outra Vez said...

Gostei muito.
(tata)

Paulodaluzmoreira said...

Pesquisas arqueológicas minhas, Tata. Nem sei se como poema ele presta muito. Ando tentando aproximar bastante prosa e poesia nos meus poemas e às vezes suspeito que isso não vai dar em nada que preste.