Thursday, July 11, 2013

Sobre médicos cubanos

Sou a favor de incentivar a imigração de qualquer tipo de profissional qualificado para o Brasil, mas tenho alguns comentários/perguntas inocentes:
1. As pessoas falam sobre médicos cubanos de uma forma que me incomoda, como se eles fossem um carregamento de charutos, esperando dentro de um depósito em Havana pelo sinal verde do governo brasileiro para serem "descarregados" e "distribuídos" pelo Brasil afora. Nos meus primeiros anos nos EUA eu tinha um visto que só me permitia trabalhar no empregador que tinha me trazido, mas depois consegui uma permissão mais ampla de trabalho. Vão dar pros médicos um visto que os obriga a trabalhar num determinado lugar e só?!
2. Há alguns anos dei aulas de inglês a um médico em começo de carreira. Ao contrário do estereótipo era um sujeito batalhador, primeiro médico numa família de classe média baixa. Ele me disse na época que trabalhava na UTI porque na UTI não faltava nada; que ele tinha ficado muito deprimido depois de trabalhar num posto pequeno perto de BH e ver gente morrer ou quase morrer com problemas completamente curáveis se um instrumento ou um medicamento básico estivesse à disposição. É um caso isolado, não tenho estatística.

3 comments:

sabina anzuategui said...

Oi, Paulo

Meu irmão é médico e trabalhou bastante em postos de saúdo no interior do Paraná.
Ele disse que é mesmo triste. Por exemplo, se tem algum doente com sintomas de problema neurológico. O prefeito faz pressão p/ que o médico não dê esse diagnóstico, pois passaria à prefeitura a responsabilidade de oferecer transporte ao hospital equipado na cidade mais próxima.
Mas se a família do doente é persistente, vai na rádio da cidade e o radialista faz uma campanha contra o prefeito. E assim vai.
De todo modo, a cidade pequena tem apenas estrutura básica, e qualquer problema mais difícil depende de outra cidade.
Na época da gripe aviária, os postos de saúde atrasavam deliberadamente e resultado do exame do vírus, para não ter a obrigação de oferecer o remédio, que era caro.

Cada setor tem seus problemas, e a dificuldade seria estabelecer as prioridades.

Agora, eu desconfio que os governos brasileiros têm a tendência de resolver tudo pelo lado mais fácil, e pouco mexem na infraestrutura.
É tudo questão de orçamento e cotas, o que se resolve no papel. Realmente administrar, no detalhe, é muito difícil. Essa responsabilidade é empurrada para o final da cadeia (municípios), e ali muitas vezes o problema de corrupção é pior que no governo federal.

Sei lá. Pessoas sempre falando de grandiosidades e esquecendo os detalhes.

Anonymous said...

Eu acho uma boa trazer médicos de fora pra cá. Dei aula em cursinhos por quatro anos, o perfil do aluno de medicina daqui é incompatível com o juramente de Hipócrates. Eu poderia dissertar horas sobre isso, falando. Por escrito, sinto muita preguiça no momento. A questão mais forte da minha argumentação seria o quanto a carreira Medicina é mantida e reservada para uns poucos membros de elites, ricas ou não. A demanda é realmente muito maior que a oferta de médicos, logo, eles ditam as regras e dão o preço.
Agora, sob outro ponto de vista - que eu também poderia defender com ardor ao falar mas estou com preguiça de fazer por escrito - tenho a experiência de quem acompanhou um doente de câncer por doze anos e concorda que existe falta de estrutura e que só trazer médicos não torna a saúde no Brasil maravilhosa.
Um mês antes do meu pai morrer, no ano passado, um médico engomadinho me olhou cheio de indignação e perguntou se eu não acreditava na medicina. Eu respondi a única coisa que eu podia responder depois de doze anos lidando com médicos: não. E também não acredito na política. Ou seja, dane-se. rs... se trazer os médicos não vai resolver, não trazê-los tb não.
O que acho legal nesse momento do Brasil é o fascínio das mascaras que caem. Por exemplo: tenho uma prima moradora da Savassi, filha de latifundiário, que postou horrores no facebook dizendo-se contra a vinda dos médicos cubanos. Os argumentos eram pífios. As amiguinhas patricinhas todas defendiam e pioravam a coisa. Monstruosidades saíram, digitadas por mãozinhas delicadas e caridosas. E este nem foi o único caso de mascara que cai presenciado por mim. Foi só o mais familiar. Fascistas, nazistas, coronelistas, e etc. estão tão revoltados com a proposta que não conseguem mais disfarçar aquilo que realmente acreditam. Isso não tem preço.
(Tata)

Paulodaluzmoreira said...

Pois é, queridas amigas, concordo com tudo o que vcs postaram. Eu escrevi como estrangeiro que foi chamado a trabalhar no exterior legalmente poque isso interessava ao país para onde eu fui. Na época eu me candidatei a vários empregos, inclusive um, para o qual cheguei a fazer uma entrevista, que era onde judas perdeu as bodas. Acho que tivesse sido aceito lá e não onde fui, simplesmente não teria ido. Ninguém quer sair do seu país para viver na situação que a Sabina descreveu, numa roleta russa constante com a vida das outras pessoas.
Tata, também não acredito na medicina. Assim, como seita onde a gente entra com a fé e a carne e eles entram com a faca e o dogma, só mesmo eles podem acreditar.
Mas acho que existem médicos [pode até ser uma minoria, não tenho ideia] que tentam praticar sua profissão com honestidade no meio do tiroteio nos escombros enquanto o estado cruza seus braços. E outros [que tbm conheci] que acham que só pq estudaram medicina merecem pertencer a classe média alta automaticamente. As máscaras sempre caem na hora H, mas eles pegam ela do chão, dão uma lustradinha e fingem que nada aconteceu.