Tuesday, August 05, 2014

Diário da Babilônia: Pára o trem que eu quero descer!

Aluna de graduação de Duke [universidade tradicional nos Estados Unidos] Miriam Weeks vira atriz pornô [com o pseudônimo Belle Knox] para pagar as contas da universidade [60.000 dólares por ano]. Um dos seus pais perdeu o emprego e diminuiu muito a renda mas a família não era pobre o suficiente para receber uma ajuda financeira que cobrisse os custos da universidade.

Alguém na universidade a reconhece num filme e a história é publicada no jornal do campus. Transformada em uma celebridade da noite para o dia Miriam Weeks/Belle Knox passa a dar inúmeras entrevistas, escrever na internet e aparecer até num famoso programa de TV onde uma mesa redonda de mulheres comenta sobre variedades.

Numa dessas entrevistas ela diz ter sido aprovada para estudar em Vanderbilt [outra excelente instituição universitária] com bolsa, mas que ela sentiu uma "vibração"diferente na capela de Duke e que ela é uma pessoa muito "espiritual" e portanto decidiu que tinha que estudar em Duke. Em outra ela reclama que a imprensa não respeita mais a sua privacidade, que a sua vida sexual melhorou muito mas que a sua vida amorosa ficou pior.

Baseada num economista conservador de um desses muitos centros de estudos especializados em produzir artigos que dizem que tudo o que o governo faz é atrapalhar a economia, que poderia muito bem se regular por si própria, a tal aluna transformada em celebridade escreve artigo na revista TIME dizendo que o governo deveria dar menos dinheiro para as universidades porque assim muitas pessoas não fariam faculdade [e afinal de contas a educação superior não deveria mesmo ser para todo o mundo] provocando uma queda na demanda pelos serviços de forma que as leis de oferta e procura reduziriam os preços naturalmente.

Estou sem paciência e ainda mais sem tempo para discutir tudo isso, principalmente pisando em ovos entre os moralistas de sempre e os novos apólogos da Popozice como emancipação feminina. Vou por um lado que acho que deve levar a um outro tipo de incompreensão, mais profunda.

Em 1967 Susan Sontag escreveu um longo artigo na Partisan Review chamado "The Pornographic Imagination". O artigo trata de livros como os de Sade e Bataille e não era em absoluto sobre a indústria do filme pornográfico - Sontag sustenta no artigo uma visão clara da diferença entre arte e indústria cultural, pelo menos no quesito da pornografia. Cito aqui um trecho meio extenso sobre a visão predominante da sexualidade na sociedade:


“The prevailing view – an amalgam of Rousseauist, Freudian and liberal social thought – estimates the phenomenon of sex as a perfectly intelligible although uniquely precious source of emotional and physical pleasure. What difficulties there are come from the long deformation of the sexual impulses administered by Western Christianity, whose ugly wounds scarcely anyone in the culture escapes. First, guilt and anxiety. Then, the reduction of sexual capacities leading if not to virtual impotence or frigidity, at least to the depletion of erotic energy and the repression of many natural elements of sexual appetite (the ‘perversions’). Then the spill-over into public dishonesties in which people tend to respond to news of the sexual pleasures of others with envy, fascination, revulsion and spiteful indignation. It’s from this pollution of the sexual health of the culture that a phenomenon like pornography is derived.
Now, what’s decisive in the complex of views held by most educated members of the community is the assumption that human sexual appetite is, if untampered with, a natural pleasant function; and that ‘the obscene’ is a convention, the fiction imposed upon nature by a society convinced that there is something vile about the sexual functions, and by extension, about sexual pleasure. It’s just these assumptions that are challenged by the French tradition represented by Sade, Lautréamont, Bataille and the authors of Story of O and The Image. Their assumption seems to be that ‘the obscene’ is a primal notion of human consciousness, something much more profound than the backwash of a sick society’s aversion to the body. Human sexuality is, quite apart from Christian repressions, etc., a highly questionable phenomenon, and belongs, at least potentially, among the extreme rather than the ordinary experiences of humanity. Tamed as it may be, sexuality remains one of the demonic forces in human consciousness – pushing us at intervals close to taboo and dangerous desires, which range from the impulse to commit sudden arbitrary violence upon another person to the voluptuous yearning for the extinction of one’s consciousness, for death itself."


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