Thursday, August 26, 2010

Ironias da vida acadêmica, ou “também com o pai que eu tinha…”



















O professor Marc Hauser é diretor do Laboratório de Evolução Cognitiva de Harvard, e se meteu em apuros por algo que a gente poderia chamar de “dopping acadêmico” – a própria universidade acaba de admitir que realmente a pesquisa de Hauser estava cheia de furos, digamos, “convenientes”, que levavam aos resultados que ele queria.
A ironia é que o livro mais conhecido de Hauser chama-se “Moral Minds: How Nature Designed Our Universal Sense of Right and Wrong” [pode ver a ilustração para ver que não estou inventando]. A essa ironia some-se outra: o eminente professor está de licença, trabalhando num novo livro chamado “Evilicious: Why We Evolved a Taste for Being Bad”...
Em face da farsa acadêmica no tal laboratório, os títulos dos dois livros parecem uma nova versão daquela história dos dois filhos do alcoólatra. Um deles também era alcoólatra e explicava: “também, com o pai que eu tinha…”. Enquanto isso o outro, que nunca tocava uma bebida, explicava sua abstinência dizendo, “também, com o pai que eu tinha…”
É bem apropriado que isso tenha acontecido com um aparente seguidor dessa mistura indigesta de neurociência behaviorista com evolucionismo darwinista. Essa gente vive nos jornais e revistas explicando porque os homens gostam de cortar a grama e as mulheres de pintar as unhas: tudo se explica invariavelmente nas estepes e cavernas em que nossa espécie apareceu e nosso cerébro foi circuitado. Você os encontra sempre junto com aqueles estudos médicos que indicam, por exemplo, que roer as unhas aumenta o risco de calvície ou que andar de patinete aumenta suas chances de ter filho gêmeos. Ciência hoje, diversão garantida para os nossos netos.
Esses cientistas me lembram o maravilhoso livro infantil Just So Stories de Kipling [um grande contista que não merecia ser lembrado por uma porcaria poética e ideológica chamada “White Man’s Burden” [O fardo do homem branco], poema “inspirado” pela ocupação das Filipinas pelos Estados Unidos]. Em Just So Stories Kipling escreve pequenas fábulas que explicam com graça e engenho porque os leopardos têm pintas ou porque os camelos têm corcovas.
Há 60 anos atrás a turma do professor Hauser estaria explicando porque os brancos dominam os esportes olímpicos em geral e o futebol; hoje eles devem estar dando explicações igualmente plausíveis para a predominância dos negros nos mesmos esportes.

6 comments:

Anonymous said...

Otimo post! Bom o humor, sempre bom o tal do humor. E a colocacao, eh claro, procede. A ciencia eh usada para provar o que querem que ela prove. Quem jah fez pesquisa academica compreende bem como eh facil se provar A ou B a partir de uma mesma coleta de dados. Mas as pessoas tendem a se esquecer disto...

Paulodaluzmoreira said...

O pior é que muita gente leva a sério! Volto e meia ouço alguém observar sobre como nossos estão circuitados para a cobiça ou a caridade, para a infidelidade conjugal ou o casamento. Minha desconfiança com essas coisas vem de quando li sobre os debates sobre a "questão racial" no Brasil e nos Estados Unidos no fim do século XIX. Todas aquelas idéias absurdas estavam embasadas pelas mais respeitadas instituições acadêmicas dos centros europeus e norte-americanos.
Não sei quem são os piores: os adivinhos disfarçados de cientistas que querem entender a natureza humana injetando porcaria em ratos de laboratório, os comentaristas de futebol na televisão ou profetas do óbvio dos livros de auto-ajuda.

sabina anzuategui said...

Eu adoro essas pesquisas! Inclusive acredito que muitas sejam cientificamente corretas, digamos assim, mas o processo de divulgação científica faz com que cheguem ao público geral reduzidas ao óbvio ou ao absurdo. Mas não é divertido?

Triste é o processo todo de valorizar tanto detalhe como se fosse verdade.

Paulodaluzmoreira said...

Essa nossa época é mesmo um prato cheio para os humoristas. Só que às vezes eu fico rindo sozinho.
Outro dia li uma entrevista de dois parágrafos de uma dupla sertaneja que reclamava de perseguição com o elitismo da crítica e diziam fazer música para o "povão" e depois comentavam sobre seu próximo show romântico na Daslu...

Tata Marques said...

O negócio é que o povão ganhou dinheiro e agora vive de explorar a elite. rs... Sabe como é, né? A eterna luta de classes. rsrs.

Paulodaluzmoreira said...

São os milagres de um Bolsa Família! E o cara deve dizer isso com a cara mais séria do mundo...