Skip to main content

Poesia Minha - LUNA PARK

Escrever poesia para mim é ficar sempre balançando entre fragmentação e coesão. Um exemplo: escrevi há tempos um poema chamado LUNA PARK, que era assim:

Mash-up: LUNA PARK

Nací cuando del sollozo del último siglo,

No se oía ni un solo eco

Luis Cardoza y Aragón

O soluço do último século

abriu a fenda onde passaram

galopando as montanhas.

O século seguinte

ofereceu a Dom Quixote

um aeroplano,

lastre lançado ao passado.

Do trigo dos campos de batalha

um grão de loucura

germinou nas minhas entranhas.

O rio suicida me piscou um olho;

sua suave sonolenta corrente noturna

não quer os barcos que singram, fumando,

pacientes, sobre trilhos, no mar.

Nesse bosque de chaminés fumantes

escuto o músculo obediente,

fiel, sonoro, da máquina,

construindo castelos no ar.

Para as vidas sublinhadas

em vermelho pela guerra

o choro veste os rostos

com caretas de máscaras de clown:

o futuro é um feto que não vem.

E que Deus é esse

que só ouve súplicas em inglês?

Que prazer sentir-se bruto

e desfolhar a vida sem saber

nada da feira do mundo,

nada desse LUNA PARK

enorme, fantástico,

triste farsa universal!


Deixei descansar e quando li de novo pensei: "fragmentado demais, assim ninguém [nem eu] entende nada. Então reescrevi tudo e o poema ficou assim:


LUNA PARK

Nací cuando del sollozo del último siglo,

No se oía ni un solo eco

Luis Cardoza y Aragón

O soluço do penúltimo século

abriu uma fenda por onde passaram

galopando as montanhas.

O século seguinte

ofereceu a Dom Quixote

um aeroplano,

lastre involuntário

lançado ao passado.

O rio suicida me piscou um olho;

sua suave sonolenta corrente noturna

não quer mais os barcos

que singram pacientes sobre trilhos,

fumando, no mar.

No velho bosque

de chaminés fumantes

se escuta o eco do músculo

obediente, fiel,

sonoro, da máquina

que construía castelos no ar.

Do trigo dos campos de batalha

outro grão de loucura

germinou nas entranhas:

para as vidas sublinhadas

em vermelho pela guerra

o choro veste os rostos

com caretas de máscaras de clown

e o futuro é um feto

que não cresce, no formol.

E que Deus é esse

que só ouve súplicas em inglês?

Ainda o prazer

de sentir-se bruto

e desfolhar a vida sem saber

nada da feira do mundo,

nada desse enorme,

fantástico LUNA PARK,

triste farsa universal!


Deixo descansar agora e provavelmente quando voltar a ele vou pensar: "nossa, ficou óbvio demais..."

Em tempo: Luna Park era um parque de diversões emblemático da virada do século XIX para o XX - mas poema com nota de pé de página!?

Comments

Auto Retrato said…
This comment has been removed by the author.
Anonymous said…
Eu lembro que gostei desse poema. =)
Eu também! Mais aí fui lê-lo de novo e já comecei a implicar com ele...
também é difícil equilibrar o prosaico e o elevado.

não sei bem, mas acho que prefiro a versão fragmentada.
Putz, Sabina! Agora é "de volta ao laboratório..." ;)
Putz, Sabina! Agora é "de volta ao laboratório..." ;)

Popular posts from this blog

Protestantes e evangélicos no Brasil

1.      O crescimento dos protestantes no Brasil é realmente impressionante, saindo de uma pequena minoria para quase um quarto da população em 30 anos: 1980: 6,6% 1991: 9% 2000: 15,4%, 26,2 milhões 2010: 22,2%, 42,3 milhões   Há mais evangélicos no Brasil do que nos Estados Unidos: são 22,37 milhões da população e mais ou menos a metade desses pertencem à mesma igreja.  Você sabe qual é? 2.      Costuma-se, por ignorância ou má vontade, a dar um destaque exagerado a Igreja Universal do Reino de Deus e ao seu líder, Edir Macedo. A IURD nunca representou mais que 15% dos evangélicos e menos de 10% dos protestantes como um todo. Além disso, a IURD diminuiu seu número de fiéis   nos últimos 10 anos de acordo com o censo do IBGE, ao contrário de outras denominações, que já eram bem maiores. 3.      Os jornalistas dos jornalões, acostumados com a rígida hierarquia inst...

Poema meu: Saudades da Aldeia desde New Haven

Todas as cartas de amor são Ridículas. Álvaro Campos O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia, mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia porque não corre minha aldeia. Poucos sabem para onde vai e donde vem o ribeirão da minha aldeia, 
 que pertence a menos gente 
 mas nem por isso é mais livre ou menos sujo. O ribeirão da minha aldeia 
 foi sepultado num túmulo de pedra para não ferir os olhos nem molhar os inventários da implacável boa gente da minha aldeia, mas, para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
 a memória é o que há para além do riberão da minha aldeia e é a fortuna daqueles que a sabem encontrar. Não penso em mais nada na miséria desse inverno gelado estou agora de novo em pé sobre o ribeirão da minha aldeia.

Os godos e o engodo racial em Machado de Assis e Lima Barreto

Muita gente acha que questões raciais estão ausentes da literatura brasileira mais antiga porque não sabe ver. Trago aqui dois exemplos clássicos, de mais de cem anos, de discussão certeira sobre as falácias do embranquecimento e da valorização da cor branca no Brasil. Os dois exemplos se apoiam num mesmo termo racial, usado de modo sarcástico, em Machado de Assis e em Lima Barreto: "godo", que se refere às tribos bárbaras [ostrogodos e visigodos] que invadiram e tomado entre partes do império romano como a península ibérica e a Itália, vira um sinônimo irônico para branco nos dois textos. Machado de Assis com a ironia fina peculiar lista entre as "moléstias mentais" diagnosticadas por Simão Bacamarte em "O alienista"não apenas a mania do embranquecimento, mas também a hipócrita cegueira a respeito dessa mania: "Alguns cronistas crêem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita...