Skip to main content

Eduardo Viotti Leão - Capítulo 5

...
Agora a sua mãe estava à beira da morte, categoricamente desenganada com aquela circunspeção típica que os médicos compartilham com os advogados. Garantiam que Otilina não tinha mais que seis meses de vida; que não havia mais nada a fazer a não ser fingir e tentar minorar o sofrimento de todos. Agora Eduardo dissimulava paciente a hostilidade que sentia pela mãe, esperando que ela finalmente partisse e libertasse a todos eles do constrangimento daquele sofrimento público. Mas a doença modificara também Otilina, tornando-a fria, distante e até rancorosa com todos da família, principalmente com o antes adorado primogênito. As visitas semanais, obrigatórias, vinham se tornando exercícios cada vez mais complicados de diplomacia.
Durante os almoços de domingo ela irritava-se com as coisas mais triviais, e não aceitava que os acessos de cólera só lhe faziam ainda mais mal. Volta e meia lhes oferecia o espetáculo lamentável de uma crise aguda e dizia impropérios, levantava-se subitamente da mesa, trancava-se no quarto e recusava-se terminantemente a sair, deixando a família inteira em situação constrangedora, olhando-se sem saber o que fazer ou dizer. Voltavam-se todos instintivamente para Eduardo, mas ele não tinha mais qualquer ascendência sobre a mãe nem sabia contornar aquela inusitada irascibilidade da mãe que feria-lhe o orgulho perante a família. Parecia-lhe que todos, irmã, cunhado e sobrinhos, mulher e filhos, sorriam com os olhos, em silêncio, intimamente satisfeitos ao vê-lo reduzido ao nível comum dos meros mortais, tão impotente como eles, batendo à porta do quarto da mãe, pedindo para entrar, para que ela abrisse a porta, para que parasse de gritar.
...

Comments

Anonymous said…
Paulo , sou eu , Luis Heitor , seu amigo de infãncia!!!! Entre em contato comigo no luisheitor@privatecar.com.br . Fiquei feliz com seu sucesso !!! Abraços , aguardo notícias suas !!!

Popular posts from this blog

Diário do Império - Antenado com a minha casa [BH]

Acompanho a vida no Brasil antes de tudo pela internet, um "lugar" estranho em que a [para mim tenebrosa] classe m é dia brasileira reina soberana, quase absoluta, com seus complexos, suas mediocridades e sua agressividade... Um conhecido, daqueles que ao inv és de ter um blogue que a gente visita quando quer, prefere um papel mais ativo, mandando suas "id éias" para os outros por e-mail, me enviou o texto abaixo, que eu vou comentar o mais sucintamente possível: resolvi a partir de amanh ã fazer um esforço e tentar, al ém do blogue, onde expresso minhas "id éias" passivamente, tentar me comunicar diretamente com as pessoas por carta... OS ALUNOS DE UNIVERSIDADES PARTICULARES DERAM UMA RESPOSTA; E A BRIGA CONTINUOU ... 1 - PROVOCAÇÃO INICIAL Estudar na PUC:............... R$ 1.200,00 Estudar no PITÁGORAS:..........R$ 1.000,00 Estudar na NEWTON:.....R$ 900,00 Estudar na FUMEC:............ R$600,00 Estudar na UNI-BH:........... R$ 550,00 Estudar na

Uma gota de fenomenologia

Esse texto é uma homenagem aos milhares de livrinhos fininhos que se propõem a explicar em 50 páginas qualquer coisa, do Marxismo ao machismo e de Bakhtin a Bakunin: Uma gota de fenomenologia Uma coisa é a coisa que a gente vive nos ossos, nos nervos, na carne e na pele; aquilo que chega e esfria ou esquenta o sangue do caboclo. Outra coisa bem outra é assistir essa mesma coisa, mais ou menos de longe. Nem a mãe de um caboclo que passa fome sabe o que é passar fome do jeito que o caboclo que passa fome sabe. A mãe sabe outra coisa, que é o que é ser mãe de um caboclo que passa fome. Isso nem o caboclo sabe: o que ela sabe é dela só, diferente do caboclo e diferente do médico que recebe o tal caboclo e a mãe dele no hospital. O médico sabe da fome do cabloco de um outro jeito porque ele já ficou mais longe daquela fome um tanto mais que a mãe e outro tanto bem mais que o caboclo. O jeito que o médico sabe da fome daquele caboclo pode ser mais ou menos só dele ainda, mas isso só se ele p

Protestantes e evangélicos no Brasil

1.      O crescimento dos protestantes no Brasil é realmente impressionante, saindo de uma pequena minoria para quase um quarto da população em 30 anos: 1980: 6,6% 1991: 9% 2000: 15,4%, 26,2 milhões 2010: 22,2%, 42,3 milhões   Há mais evangélicos no Brasil do que nos Estados Unidos: são 22,37 milhões da população e mais ou menos a metade desses pertencem à mesma igreja.  Você sabe qual é? 2.      Costuma-se, por ignorância ou má vontade, a dar um destaque exagerado a Igreja Universal do Reino de Deus e ao seu líder, Edir Macedo. A IURD nunca representou mais que 15% dos evangélicos e menos de 10% dos protestantes como um todo. Além disso, a IURD diminuiu seu número de fiéis   nos últimos 10 anos de acordo com o censo do IBGE, ao contrário de outras denominações, que já eram bem maiores. 3.      Os jornalistas dos jornalões, acostumados com a rígida hierarquia institucional católica não conseguem [ou não tentam] entender muito o sistema