Wednesday, January 12, 2011

Diário da Babilônia – Sobre Gabrielle Giffords


Acho que para entender o que está acontecendo nos Estados Unidos é importante em primeiro lugar fazer uma distinção fundamental entre opiniões de direita e opiniões de extrema direita. Ser a favor, por exemplo, de privatizações de tudo o que puder ser privatizado ou mesmo contra o casamento dos homossexuais são formas de ser de direita; achar que seu país está sendo tomado por comunistas muçulmanos que querem transformá-lo numa mistura de União Soviética e Alemanha Nazista e que os homossexuais tem sociedades secretas para seduzir crianças e expandir seu suposto poder e devem ser apedrejados por em praça pública é ser de extrema direita.

Em segundo lugar é importante distinguir entre opiniões individuais [como essas minhas] num blogue ou numa página de Facebook e opiniões que aparecem com a sanção de um canal de notícias da grande mídia ou de uma figura importante de um partido político nacional poderoso. Não é por coincidência, por exemplo, que eu nunca uso o nome da instituição a qual pertenço nem meu título dentro dela quando escrevo aqui.

Não é uma questão de responsabilidade pessoal, mas de responsabilidade institucional. Eu continuo sendo responsável por essas minhas opiniões pessoais, e seria assim mesmo que eu usasse um pseudônimo. As pessoas têm o direito de expressar suas idéias – desde que estejam dispostos a responderem por elas. O problema entretanto se complica quando se fala a partir de uma instituição.

Nos EUA até bem pouco tempo atrás certas teorias conspiratórias de extrema direita como as da John Birch Society circulavam apenas em lugares marcados com o estigma de "fringe" [à margem do mainstream cultural]. Isso principalmente porque elas se apóiam em fantasias perversas ao invés de fatos e incitam a soluções violentas e anti-democráticas. Lembremos que nos anos 60 um mínimo aceno feito na direção dessa gente rendeu um trocadilho eleitoral de sucesso contra Barry Goldwater. Quando Goldwater dizia "in your heart you know he's right"; os democratas devolviam dizendo "in your guts you know he's nuts".

A partir da vitória de Obama essas mesmíssimas idéias ganharam canais de divulgação e legitimidade na mídia e no sistema político americano, e isso é responsabilidade do establishment americano. Esse flerte com a extrema direita vem de longe – Goldwater era o mentor de Ronald Reagan – e a direita americana tradicional, cujos últimos nomes foram Bob Dole e Gerge Bush Pai, agora estão pagando um preço caro: ou se renderam ou viraram “moderados de direita” e de “moderados de direita” viraram “fake republicans”. Sobrevivem os que aceitam compactuar com os extremistas – como McCain – e o partido como um todo vai virando outra coisa – não custa lembrar que Abraham Lincoln era republicano. Montados em dinheiro sujo o Tea Party pode afundar o Partido Republicano ou afundar os Estados Unidos como um todo. Ou será viável a sobrevivência a longo prazo num sistema democrático de um partido de gente que acha que o Banco Central Americano é parte de uma conspiração totalitária?

Finalmente é preciso distinguir entre o direito que as pessoas possam ter de comprar, guardar ou portar armas e a permissibilidade de um sistema que deixa um sujeito que foi barrado do serviço militar por problemas com drogas e expulso da sua faculdade por demonstrar agressividade e instabilidade psicológica comprar uma Glock, arma altamente “eficiente”, conhecida por ser particularmente letal e ainda equipá-la com um pente extra com mais balas do que o normal. Com uma faca de cozinha ele teria matado um, com um .38 comum uma ou duas pessoas, com uma Glock… deu no que deu.

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