Monday, January 31, 2011

Sobre escritores 4

[Ilustração: George Condo, outra vez]

"No Colégio Cataguases as aulas eram de manhã e os colegas estranhos. Fui designado para uma classe de repetentes (a maioria por indisciplina) e não consegui me adaptar ao novo ambiente. Comecei então a, nos intervalos, me afastar para os cantos. Até que um dia descobri, maravilhado, que existia um lugar tranquilo, silencioso, pouco frequentado... E passei a fazer daquele espaço, a biblioteca, o meu refúgio.

Só que, após me ver várias vezes por ali, sentado sem fazer nada, a bibliotecária provavelmente pensou que eu quisesse o empréstimo de um livro, mas que, por algum motivo, vergonha talvez, eu não tivesse coragem de me dirigir a ela. Então, tomando a iniciativa, ela me chamou um dia, preencheu uma ficha, colocou um livro em minha mão e disse: Leva esse, leia e me devolva daqui a tantos dias... Eu, muito tímido, não contestei. Enrubescido, peguei a brochura, enfiei na pasta e carreguei para casa.

Quando cheguei, a primeira coisa que meu pai perguntou, como ele fazia sempre que aparecíamos com algo diferente em casa, foi: O que é isso, menino? Eu respondi, sem graça: Um livro. E ele: Onde você pegou isso, menino? Eu: Peguei não, pai, foi a moça lá que me deu... Ele: Deu? Eu: É, ela falou pra eu ler e devolver pra ela. Ele: Se ela falou pra você ler, vai ler então!

Dias depois, levei-o de volta, e a bibliotecária perguntou, desconfiada: Leu o livro? Respondi: Sim, senhora. E ela, exultante, falou: Que bom! Então, tome este. Eu, obediente, levei-o para casa, li, devolvi, e ela, achando que havia conquistado um novo leitor, passou o ano inteiro me emprestando livros. Lembro, por exemplo, que li todos os volumes do Tesouro da Juventude...

Ao fim daquele ano, inadaptado ainda, saí do Colégio Cataguases e voltei para o Antônio Amaro, onde, estudando à noite, retomei o trabalho durante o dia (balconista de armarinho, operário têxtil). Mas, de alguma maneira, havia sido contaminado pelo vírus da leitura.


O resto do depoimento de Luis Ruffato está aqui. A dica veio da espelunca de Ademir Assunção.

3 comments:

Phoebe said...

Olá Paulo,
Perdoe-me se achar abusivo, posso pedir-lhe uma sugestão? Quer amavelmente partilhar alguns títulos ou escritores brasileiros que possam polir o meu baço e desvanecido conhecimento da Vossa literatura?
Apetece-me abrir janelas e refrescar.

Bem-haja.
Um excelente fim-de-semana.

Paulodaluzmoreira said...

Phoebe,
Vou tentar ser "mínimo".
Na literatura contemporânea brasileira eu recomendo o Ruffato, Adriana Lisboa e Sabina Anzuatégui. No quesito tradição, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Guimarães Rosa formam o cânone básico, acho que indiscutível.
Poesia contemporânea eu fico com Paulo Henriques Britto e Angélica Freitas e a "clássica brasileira" seria Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.
Se vc quiser faço sugestões de coisas de cada um deles, também tentando ser mínimo.

Phoebe said...

Paulo,
estou uma "bolinha" de contente!!

Muito obrigada pelo seu tempo e seguramente belíssimas e avisadas sugestões.
Copiei tudo para as minhas notas e vou começar pela prosa. (A poética para mim, ainda é "work in progress" e, admito, tenho um longo caminho a desbravar para deixar de a sentir distante e hermética.)
Começo então por aceitar o repto nos contemporâneos e "tradição", agradecendo desde já os títulos para me dedicar à procura, nestas livrarias por esta Lisboa ao Tejo plantada :-)