Já li um crítico que dizia que com 8 e ½ o modernismo finalmente chegava ao cinema em 1963 – e eu fiquei me perguntando, “será que esse cara nunca viu 'Cão Andaluz' do Buñuel?” Bom, modernismos e pós-modernismos a parte, esse filme sobre um filme sobre um filme é uma jogada de mestre de um diretor consagrado em plena crise dos 40, sem saber que caminho seguir. Mas nesses nossos tempos de moralismo puritano, o que mais me chama em Fellini é a capacidade de ser profundamente crítico [inclusive consigo mesmo] sem perder absolutamente o afeto pelas coisas. Nem o senso crítico é raivoso e amargo, nem a memória nostálgica é simplesmente apaziguadora. Um exemplo dessa proeza que Fellini repete tantas vezes em seus filmes, no caso de 8 e ½, é a paródia impiedosa que ele faz das fantasias masculinas, revelando sem o menor pudor, com a maior cara de pau possível, o desejo do protagonista de ver, não apenas a amante perua e a esposa intelectual, mas todas as mulheres que amou ou desejou – inclusive mãe, avó e babás – num harém absurdo, completo com um andar de cima para aquelas condenadas ao esquecimento.
Todas as cartas de amor são Ridículas. Álvaro Campos O Tietê é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia, mas o Tietê não é mais sujo que o ribeirão que corre minha aldeia porque não corre minha aldeia. Poucos sabem para onde vai e donde vem o ribeirão da minha aldeia,
que pertence a menos gente
mas nem por isso é mais livre ou menos sujo. O ribeirão da minha aldeia
foi sepultado num túmulo de pedra para não ferir os olhos nem molhar os inventários da implacável boa gente da minha aldeia, mas, para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
a memória é o que há para além do riberão da minha aldeia e é a fortuna daqueles que a sabem encontrar. Não penso em mais nada na miséria desse inverno gelado estou agora de novo em pé sobre o ribeirão da minha aldeia.
Comments
É o primeiro filme Fellini do Fellini, porque até 1962, ele flertou com o neorealismo (I Viteloni e La Strada, para ficar nos melhores) e com o cinema italiano dos anos 60 e 70 (com La Dolce Vita).
A partir do 8 e 1/2, Fellini passa a ter uma cara toda própria.
Um filmaço, e sua análise ficou muito boa.
Abração