Thursday, February 13, 2014

Recordar é viver


Acho bom lembrar que o jornalismo e a política no Brasil tem uma longa e tenebrosa tradição de fraudes:

1.     Em 1921 o jornal Correio da Manhã publicou cartas supostamente escritas por Arthur Bernardes com comentários desrespeitosos aos militares. As cartas que o jornal anunciava serem “escritas e assinadas pelo próprio punho do presidente de Minas, segundo os mais apurados exames periciais” eram falsas.

2.     Em 1937 “descobriu-se” o “Plano Cohen” de dominação comunista do Brasil, saído diretamente da máquina de escrever de um militar integralista Olímpio Mourão Filho, então chefe da AIB [Associação Integralista Brasileira] e futuro general do golpe de 1964. A fraude só foi revelada depois de oito anos de ditadura implacavelmente anti-comunista pelo poderoso general Góes Monteiro, um dos arquitetos do golpe do Estado Novo. 

3.     Em setembro de 1955, durante a campanha para presidência da república,  noticiou-se que uma “república sindicalista” baseada em brigadas de trabalhadores armados estaria sendo tramada entre os peronistas argentinos e a esquerda trabalhista no Brasil representada pelo candidato a vice de JK, João Goulart. A denúncia baseou-se numa carta falsa do deputado justicialista Antonio Brandi ao então ministro do trabalho João Goulart. Carlos Lacerda leu a carta na televisão e ela depois foi publicada na íntegra em O Globo e na Tribuna de Imprensa. A manchete de O Globo em 17 de setembro, por exemplo, era “Armas Cedidas por Perón a João Goulart” [aqui dá para ver as primeiras páginas daquele mês e ver que o clima de panfleto anti-comunista histérico do jornaldo Sr. Marinho. Só em dezembro daquele ano, depois da vitória de JK, a fraude foi revelada como tal. O fantasma foi ainda revivido por Lúcia Hippolito e depois por José Serra a partir de 2008.

4.     Em 1975 houve o laudo do IML assinado por Arildo de Toledo Viana e por Harry Shibata [que continuou diretor do IML até 1983] para o “suicídio” do jornalista Vladimir Herzog em cela do DOI-CODI. Seria o mais famoso dos vários laudos forjados pela ditadura.

5.     Em 1981 a explosão de um puma na porta do Riocentro no dia de um show de 1o de maio teria sido obra de um certo “Comando Delta.” O secretário de segurança do RJ, um certo general Waldyr Muniz garantia na primeira página de O Globo “que o capitão e o sargento correram para o local juntamente com agentes de outros órgãos de investigação” depois que “um telefonema anônimo anunciou que um grupo terrorista denominado Comando Delta” faria explodir uma bomba. 

6.     Em 1982, na primeira eleição para governador desde 1966, houve o anúncio da “derrota” de Brizola nas eleições para governador do Rio de Janeiro com a ajuda da Proconsult.

7.     Na campanha eleitoral de 1989 um dos sequestradores de Abílio Diniz aparece uniformizado com a camisa do PT. Ainda em 1989 ficou “constatado” o abandono de Lurian pelo pai seu pai Lula com um enojante depoimento da mãe da menina.

8.     O “envolvimento” de Ibsen Pinheiro com a máfia dos Anões do Orçamento levou a um linchamento na mídia que culminou na cassação do deputado em 1994.

9. E as "irrefutáveis" acusações contra Erenice Guerra desde 2008 até 2010 terminam arquivadas “por total falta de provas” em 2012.


 Recomendo portanto às pessoas que acham que gente do PSOL anda pagando 150 reais para gente soltar rojão em cima de jornalistas a ter um pouco de cautela mesmo quando houver "provas irrefutáveis".

2 comments:

André Tessaro Pelinser said...

Com esse post, já dá pra começar a pensar na ementa de uma disciplina intitulada "A história da história do jornalismo", a ser ministrada repetidamente em todos os semestres do curso.

Paulodaluzmoreira said...

Pois é, André, e ainda tem gente que se espanta quando acontece! Essa mescla perversa de jornalismo e fraude é uma tradição política no Brasil.
Como dizia o Lacerda quando seu jornalista lhe advertiu que a tal carta Brandi era uma fraude, "isso é problema para o pessoal do Jango descobrir!"